domingo, 17 de maio de 2009
QUANTAS MENTIRAS CONTARAM...
começa a acreditar e, ainda por cima, a se achar culpada por ser burra, incompetente e sem condições de fazer da vida uma sucessão de vitórias e felicidades.
Uma das mentiras:
É a que nós, mulheres, podemos conciliar perfeitamente as funções de
mãe, esposa, companheira e amante, e ainda por cima ter uma carreira profissional brilhante.
É muito simples: não podemos.
Não podemos; quando você se dedica de corpo e alma a seu filho
recém-nascido, que na hora certa de mamar dorme e que à noite, quando devia estar dormindo, chora com fome, não consegue estar bem sexy quando o marido chega, para cumprir um dos papéis considerados
obrigatórios na trajetória de uma mulher moderna: a de amante.
Aliás, nem a de companheira; quem vai conseguir trocar uma idéia sobre
a poluição da Baía de Guanabara se saiu do trabalho e passou no
supermercado rapidinho para comprar uma massa e um molho já pronto
para resolver o jantar, e ainda por cima está deprimida porque não
teve tempo de fazer uma escova?
Mas as revistas femininas estão aí, querendo convencer as mulheres - e
os maridos - de que um peixinho com ervas no forno com uma batatinha cozida al dente, acompanhado por uma salada e um vinhozinho branco é facílimo de fazer - sem esquecer as flores e as velas acesas, claro, e com isso o casamento continuar tendo aquele toque de glamour fun-da-men-tal para que dure por muitos e muitos anos.
Ah, quanta mentira!
Outra grande, diz respeito à mulher que trabalha; não à que faz de
conta que trabalha, mas à que trabalha mesmo. No começo, ela até tenta se vestir no capricho, usar sapato de salto e estar sempre maquiada;mas cedo se vão as ilusões. Entre em qualquer local de trabalho pelas 4 da tarde e vai ver um bando de mulheres maltratadas, com o cabelo horrendo, a cara lavada, e sem um pingo do glamour - aquele - das executivas da Madison.
Dizem que o trabalho enobrece, o que pode até ser verdade.
Mas ele também envelhece, destrói e enruga a pele, e quando se percebe a guerra já está perdida.
Não adianta: uma mulher glamourosa e pronta a fazer todos os charmes -
aqueles que enlouquecem os homens - precisa, fundamentalmente, de duas coisas: tempo e dinheiro.
Tempo para hidratar os cabelos, lembrar de tomar seus 37 radicais
livres, tempo para ir à hidroginástica, para ter uma massagista
tailandesa e um acupunturista que a relaxe; tempo para fazer
musculação, alongamento, comprar uma sandália nova para o verão, fazer as unhas, depilação; e dinheiro para tudo isso e ainda para pagar uma excelente empregada - o que também custa dinheiro.
É muito interessante a imagem da mulher que depois do expediente vai
ao toalete - um toalete cuja luz é insuportavelmente branca e fria,
retoca a maquiagem, coloca os brincos, põe a meia preta que está na
bolsa desde de manhã e vai, alegremente, para uma happy hour.
Aliás, se as empresas trocassem a iluminação de seus elevadores e de
seus banheiros por lâmpadas âmbar, os índices de produtividade iriam
ao infinito; não há auto-estima feminina que resista quando elas se
olham nos espelhos desses recintos.
Felizes são as mulheres que têm cinco minutos - só cinco - para
decidir a roupa que vão usar no trabalho; na luta contra o relógio o
uniforme termina sendo preto ou bege, para que tudo combine sem que um só minuto seja perdido.
Mas tem as outras, com filhos já crescidos: essas, quando chegam em
casa, têm que conversar com as crianças, perguntar como foi o dia na
escola, procurar entender por que elas estão agressivas, por que o
rendimento escolar está baixo.
E ainda tem as outras que, com ou sem filhos, ainda têm um namorado
que apronta, e sem o qual elas acham que não conseguem viver . Segundo um conhecedor da alma humana, só existem três coisas sem as quais não se pode viver: ar, água e pão.
Convenhamos que é difícil ser uma mulher de verdade;impossível, eu diria.
Parabéns para quem consegue fingir tudo isso ....
domingo, 19 de abril de 2009
Educação e Integridade
Ir a escola pela primeira vez é um grande desafio para uma criança. Não importa a idade, independe do país e mesmo do contexto histórico no qual está inserida a criança. A superação da insegurança só acontece após alguns dias, depois de uma plena adaptação, através da qual o menino ou menina conheça seus colegas, compreenda a dinâmica do ambiente escolar e trave o necessário e primordial contato com seu professor.
Nesse aspecto, a figura do professor é definidora não apenas no sentido da ambientação. Os mestres respondem pela própria paixão a ser despertada nos infantes. Parte deles toda a energia vital que, necessariamente, contagia os alunos e faz com que eles não apenas se sintam bem na escola, mas também, que alimentem certa paixão pela aprendizagem, pelo conhecimento, pela pesquisa...
José Luiz Corda, cineasta espanhol, retratou com grande êxito, os primeiros passos do menino Moncho (Manuel Lozano), de sete anos, nessa grande aventura de ingressar na escola, através de seu filme “A Língua das Mariposas”.
A sensibilidade do filme de Corda nos remete a duas outras grandes obras recentes da filmografia européia, as produções italianas “A Vida é Bela”, de Roberto Begnini e “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore. Além disso, a intensa relação que se define entre Moncho e seu velho professor Don Gregório (Fernando Fernán-Gomes) nos fazem lembrar das parcerias estabelecidas entre Giosué e Guido (de “A Vida é Bela”) e entre Totó e Alfredo (de Cinema Paradiso).
Entretanto, diferentemente daqueles filmes, “A Língua das Mariposas” tem como foco a relação professor-aluno. Estabelece a imagem do professor humano, caloroso, próximo e paciente. Nos mostra a atitude do profissional da educação como aquela do erudito, que lê, pesquisa, conversa regularmente com muitas pessoas e é admirado pela comunidade.
O filme nos mostra Don Gregório como uma figura impar dentro do contexto educacional da época retratada (o filme se passa no período brevemente anterior a Guerra Civil Espanhola), fica claro para o espectador que a atitude desse educador contrasta com posicionamentos mais fortes e autoritários dos demais professores da época (Antes de conhecer Don Gregório, o menino Moncho tem medo de ir a escola e fala em fugir para a América; receia que possa ser punido com severidade pelo futuro professor).
Além disso, a preocupação em ensinar e cativar as crianças não se restringe a demonstrar todo o conhecimento obtido a partir de leituras e pesquisas. Don Gregório representa o educador íntegro, que se percebe como referência (e que, nem por isso, se envaidece) e que, ciente de suas responsabilidades a partir de então, se mostra sempre sereno, altivo e elegante.
Mais que teorias, ele ensina a seus alunos novas posturas perante o mundo, onde as pessoas devem se respeitar, ter sensibilidade e jamais abandonar seus ideais...
O Filme
Moncho (Manuel Lozano) tem apenas sete anos e se prepara para o maior desafio de sua vida. Está a apenas algumas horas de seu primeiro dia de aula. Alertado por alguns meninos, ele acredita que o professor poderá castigá-lo ao menor erro. O menino pensa, inclusive, em fugir para a América, como alternativa a escola.
O que lhe espera, entretanto, é uma grande surpresa. Seu professor, Don Gregório (Fernando Fernán-Gomes), um senhor próximo da aposentadoria, jamais agiu agressivamente em relação a nenhum de seus alunos. Pessoa de fala mansa, de grande tranqüilidade e de postura elegante, apesar de toda a simplicidade, o professor garante sua credibilidade perante seus alunos a partir do conhecimento que possui e da calma com que resolve os pequenos problemas do cotidiano.
Moncho se apaixona pela escola e passa a se dedicar com grande vontade às tarefas e atividades propostas por Don Gregório. Encanta-se com as histórias contadas pelo velho mestre e se anima ainda mais quando algumas aulas são dadas ao ar livre. Paralelamente a suas realizações escolares, o menino acompanha os acontecimentos da vida cotidiana da pacata cidade onde vive.
Descobre o amor e se percebe no meio de um emaranhado de relações políticas e sociais (mesmo não entendendo exatamente o significado desses acontecimentos), numa época em que a Espanha ferve as vésperas de sua guerra civil. As turbulentas transformações pelas quais passava o país colocam o velho e honrado professor em situação delicada devido a seus posicionamentos políticos. Em quem deve acreditar Moncho?
Fortes emoções tornam “A Língua das Mariposas” filme obrigatório para todos aqueles que acreditam na vida e na educação. Não percam!
domingo, 22 de março de 2009
O homem e sua relação com Deus, segundo Sartre
Sartre revolucionou a compreensão de muitos conceitos. Abordaremos, nesta intervenção, algumas conceituações fundamentais para se compreender sua visão a respeito do homem. Segundo a concepção tradicional, a essência do homem precede a existência. Não é essa, no entanto, a posição de Sartre. E sendo ateu, não aceita a concepção de criação divina a partir de um modelo. Por isso especifica que, ao contrário das coisas e animais, no homem a existência precede a essência, e isso significa: “Que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e quer só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista (Sartre), se não é definivel, é porque primeiramente não é nada. Só depois será alguma coisa e tal como ele se concebe depois da existência, como ele se deseja após este impulso para a existência; o homem não é mais que o que ele faz. Tal é o primeiro do existencialismo”.
Qual a diferença entre o homem e as coisas? É que só o homem é livre. O homem nada mais é do que o seu projeto. A palavra projeto significa, etimologicamente, ser lançado “adiante”, assim como o sufixo ex da palavra existir significa “fora”. Ora, só o homem existe, porque o existir do homem é “para si”, ou seja, sendo consciente, o homem é uma “ser-para-si”, pois a consciência é auto-reflexiva, pensa sobre si mesma, é capaz de pôr-se “fora de si”.
Portanto, a consciência do homem o distingue das coisas e dos animais que são “em si"” ou seja, como não são conscientes de si, também não são capazes de colocar “ do lado de fora” para se auto examinarem. O que acontece ao homem quando se percebe “para si”, aberto à possibilidade de construir ele próprio a sua existência? Descobre, que não havendo essência ou modelo para lhe orientar o caminho, seu futuro se encontra disponível e aberto, estando portanto de Dostoiévski em os Irmãos Karamazov: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”, para relembrar que os valores não são dados nem por deus nem pela tradição: só o próprio homem cabe inventá-los. Se o homem é livre, é conseqüentemente responsável por tudo aquilo que escolhe e faz. A liberdade só possui significado na ação, na capacidade do homem de operar modificações no real.
O homem não é “em si”, ele é “para si”, que a rigor não é nada, pois se a consciência não tem conteúdo, não é coisa alguma. Mas esse vazio é justamente a liberdade fundamental do “para si”, que, movendo-se através das possibilidades, poderá criar-lhe conteúdo. Eis que o homem, ao experimentar a liberdade, e ao sentir-se como um vazio, vive angustia da escolha. Muitas pessoas não suportam essa angustia, fogem dela, aninhando-se na má-fé. A má fé é a atitude característica do homem que finge escolher, sem na verdade escolher. Imagina que seu destino está traçado, que os valores são dados; aceitando as verdades exteriores, mente para si mesmo, simulando ser ele próprio o autor dos seus próprios atos já que aceitou sem criticas os valores dados. “O ser humano não é somente o ser pelo qual se revelar negatividade no mundo. É também o que pode tomar atitudes negativas com relação a si.”
O homem sartreano é desamparado, sem presente, sem chão, voltado para o passado buscando um futuro a ser construído. Sua moral é da escolha, pois segundo Sartre: O homem é livre para agir, para engajar-se na luta pela vida da qual o próprio homem é contingente.
Diante de um período de descrença de valores, hipocrisia da burguesia, Sartre investiga que ele é, quem são os homens e qual o sentido da vida?
Para Sartre o homem vive de escolhas, e são através dessas escolhas, dependendo de qual escolha fizer, é que o homem vai manifestar a sua presença dentro do mundo. O homem primeiramente existe, e durante o processo de sua existência, ele se torna e vai construindo a essência, ou seja, a existência precede a essência, a essência é um construtor humano. Com isso, Sartre quer dizer que o homem é uma construção que se faz mediante a liberdade, a qual é fruto da sua escolha. “ Quando nasce, o homem é nada. Não existem idéias inatas, anteriores ao surgimento do homem e destinadas a orientar sua vida, indicando que caminho ele deve seguir. As idéias, o homem extraí de sua experiência pessoal. O indivíduo primeiramente existe; torna-se isto ou aquilo, quer dizer, adquire sua essência”.
O homem deve ser inventado todos os dias, sintetiza Sartre.
É através da liberdade que o homem escolhe o que há de ser, escolha sua essência e busca realizá-la. É a escolha que faz entre as alternativas com que se defronta que constitui sua essência. E é essa escolha que lhe permite
criar seus valores. Não há como fugir a essa escolha, pois mesmo a recusa em escolher já é uma escolha. Ao escolher, o homem escolhe sua essência e realiza.
Como se processa a aquisição dessa essência? Justamente através das nações de projeto e de escolha, já mencionadas antes. Só ao homem cabe criar valores sob os quais dirigirá sua vida. Criando-os, torna-se responsável por tudo que fizer. O homem, conforme Sartre, não é nada mais que o seu projeto, só existe na medida em que o realiza através da série de seus atos. Se, no homem a essência precedesse a existência, ele não poderia ser livre, pois desde o princípio sua vida estaria predeterminada. O sucesso ou o fracasso dos atos do homem é sua obra; não lhe é permitido culpar os outros ou as circunstâncias pelos seus erros.
O mundo é opaco. O homem é definido por suas ações, e o destino está em sua ação que permite que ele viva.
Quando o homem se descobre, quando ele se compreende, ele não se prostitui, pois à medida que se encontra, o homem também encontra o outro. A liberdade do homem começa onde começa a do outro e não termina onde começa a do outro.
É no mundo que o homem descobre o que ele é e o que são os outros homens, então não é uma subjetividade de relações, mas de relação. A verdade é dada pelo sujeito que pensa. Quando o homem se compreende, não o faz de maneira isolada, mas na relação com o outro. O homem não existe sem os outros homens (eu não existo sem o outro), e o humanismo é isso, um descobrindo o outro. Para Sartre os projetos humanos são diferentes, mas o que os torna iguais, é que existe uma universalidade entre eles e podem ser entendidos porque são maneiras de lidar com o mundo, de manifestar a existência dele e do outro no mundo. Podemos assim compreender toda a forma de cultura.
A coerência do homem está no momento que ele coloca os valores em vida e só depois é que ele pode julgar. Construímos nós mesmos, na medida que agimos, na media em que o ético se reflete na ação, onde aquilo que o homem é, aquilo que ele faz e não fala, e que seu discurso se não for referendado pela prática estará agindo de má fé. A ética só é realidade na ação, no viver, “Tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de beber, a salvação esta na ação do homem”.
O homem só acontece na vida moral, escolhendo a uma moral. Ao buscar um projeto que esta na possibilidade de superação de si próprio é que o homem se realiza.
Para Sartre o homem vai além, superando-se. O existencialismo não é um ateísmo engajado que se preocupa, mediante a ação do homem que se preocupa em provar a não existência de Deus, mas que se preocupa mediante a ação do homem que é o humanismo. “ O existencialismo é uma moral da ação, porque considera a única coisa que define o homem, é o seu ato. Ato livre por excelência, mesmo que o homem sempre esteja situado em determinado tempo ou lugar. Não importa o que as circunstancias fazem do homem, mas o que ele faz do que fizeram dele”.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Paulo Freire
"Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo,
torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente,
ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se
a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela
tampouco a sociedade muda."