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quinta-feira, 26 de junho de 2014

À espera da geração de mulheres que não se importam com o que os homens querem

Texto de Michele Escoura.
A leitura do texto de Ruth Manus em seu blog do jornal O Estado de São Paulo na última quarta-feira (18/06) expôs as angústias de uma mulher em meio às transformações nos padrões de feminilidade das últimas gerações. A colunista em certa altura do texto relata como sua educação familiar priorizou suas conquistas nos campos públicos da sociedade, como educação e mercado de trabalho, em contrapartida aos papéis tradicionalmente vistos como femininos. Conta dos olhos de sua mãe que brilhavam mais com suas “notas 10” do que as receitas de bolos acertadas. E do orgulho dos pais com o curso na Sorbonne enquanto deixavam de lado o curso de corte e costura, a arte de preparar um arroz ou de rechear um lagarto. Ruth aprendeu a dirigir, aprendeu inglês, a gostar de esportes, construir um bom currículo e ganhar seu próprio dinheiro, assim como os meninos.
Pertencente a esta nova geração de mulheres “criadas para ganhar o mundo”, a colunista destaca o desafio: estaríamos criando um mundo de mulheres que chegam à vida adulta seguras de si, porém sozinhas. Segundo ela, os novos voos alçados pelas mulheres nos estariam deixando alheias àquilo que os homens, em contrapartida, teriam aprendido sobre o que é a mulher ideal para desejarem. Neste imbróglio de transformações sobre a feminilidade, Ruth se vê parte de uma “incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem NÃO quer”. Afinal, em seus próprios termos, “quem foi educado para nos querer?”.
O grande mérito de seu texto é evidenciar que, afinal, décadas de intenso debate feminista não foram em vão. Enfim as mulheres estão conquistando novos e inesperados espaços. E é justo que mudanças nos tragam dúvidas e incertezas. Mas o angustiado relato de Ruth, entretanto, poderia colocar uma outra questão: por que, mesmo com todo o frescor de liberdade que nos está sendo ensinado pelas últimas gerações, ainda nos ensinam que devemos tanto nos preocupar em estar acompanhadas? Por que ser desejada por algum homem é tão necessário, ou, ainda, por que casar é ainda tão importante para as mulheres?
Durante alguns anos realizei pesquisas com crianças pequenas sobre os contornos de feminidade e certa vez ouvi de uma garota de cinco anos que ser Princesa, para ela, “era ter um príncipe, porque se não casar não é princesa, é solteira”, ao mesmo tempo em que me contava que sua mãe sempre dizia que “tem que casar, porque não tem como ser feliz sozinha”. Parece que Ruth também aprendeu isso.
Nas últimas décadas tomamos as ruas com nossos carros, tomamos os cargos de chefias e tomamos nossas cervejas em mesas sujas de botecos, para o horror de muitas bisavós. Mas quando nós, mulheres, vamos tomar a coragem para mudar também o que entendemos por “felicidade”? Quando deixaremos de ensinar às nossas meninas que elas só serão felizes e completas quando encontrarem o homem de suas vidas? Sim, Ruth, quando deixaremos de nos preocupar em sermos as mulheres que os homens querem? Conquistamos os bancos escolares, o mercado de trabalho e os assentos de aviões para rodarmos o mundo. Mas quando conquistaremos a independência de nossos corpos e desejos? Quando conquistaremos a liberdade de sermos o que quisermos independente da expectativa dos outros sobre nós mesmas?
Foto de Spyros Papaspyropoulos no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Spyros Papaspyropoulos no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Não vamos aqui duvidar do valor das relações e da importância de termos parcerias em nossas vidas. Mas questionemos, Ruth, essa obrigação de sermos sempre a princesa de alguém. Nós podemos alçar sonhos muito maiores do que aqueles que nos foram ensinados e, Ruth, não aceite essa conexão entre as ideias de “estar solteira” e culpa. Deixaram de nos ensinar a diferença entre alvejante e água sanitária, mas continuam nos ensinando que não ter um homem para dormir sobre o peito é, necessariamente, estar em falta.
Cara Ruth, compadeço com suas palavras e me reconheço na máxima de que “não vamos andar para trás”. Mas nosso primeiro próximo passo, talvez, seja reconhecer que liberdade para as mulheres é muito mais que pagar nossas contas. Liberdade é, inclusive, emancipar-se daquela velha e já batida ideia de que uma mulher só se completa com o amor verdadeiro e de que o sonho de todas nós deve ser um dia se vestir de noiva. Deixa disso, Ruth. Sejamos mais do que a sociedade espera da gente e comecemos retirando o “ser tudo o que um homem NÃO quer” do título de seu texto e de nossas preocupações.
Autora
Michele Escoura é antropóloga, pesquisadora do NUMAS – Núcleo de estudos sobre os marcadores sociais da diferença da USP e assessora da ONG Ação Educativa, onde realiza trabalhos sobre gênero e educação.
Fonte: http://blogueirasfeministas.com/2014/06/a-espera-da-geracao-de-mulheres-que-nao-se-importam-com-o-que-os-homens-querem/

quinta-feira, 6 de junho de 2013

"Quanto mais se encarcera, mais se fortalece o PCC"

O Primeiro Comando da Capital extrapolou as fronteiras. Vinte anos depois de seu nascimento, a facção passa por um processo de nacionalização e ganha ramificações em estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Sergipe e Pernambuco. Ao mesmo tempo, o grupo hoje se mostra como força hegemônica em sua base de origem, São Paulo – o que, por uma lógica cruel, explica em parte a queda dos homicídios nas áreas de seus domínios.
Com controle sobre 90% do total de 200 mil presos e o monopólio do mercado de drogas, a facção passou a mediar e regular disputas do mundo do crime, rompendo ciclos de vingança, avalia a socióloga Camila Nunes Dias, autora de PCC – Hegemonia nas Prisões e Monopólio da Violência (Editora Saraiva), que tem lançamento nesta quarta-feira 5. Segundo ela, a facção é atualmente um “importante ator político”, uma vez que detém poder e capacidade para desestabilizar a política de segurança pública do Estado.
Para o livro, que nasceu de sua tese de doutorado, a pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP e professora da Universidade Federal do ABC utilizou documentos oficiais, entrevistas com autoridades da área de segurança e material coletado de conversas privadas com 32 presos para contar a história da facção. Uma trajetória, ela explica a CartaCapital, fruto direto de um “círculo vicioso perverso” que tem a política de encarceramento em massa como protagonista: "Quanto mais se encarcera, mais se fortalece o PCC."
Leia os principais trechos da entrevista:
CartaCapital – Como atua o PCC hoje e qual é sua extensão dentro e fora das prisões?
Camila Nunes Dias –
 De forma geral, hoje o PCC representa uma hegemonia no sistema prisional do estado de São Paulo, não apenas no sistema prisional, mas em todo mundo do crime. No estado, cerca de 90% das prisões são controladas pelo PCC. Fora de São Paulo, vejo que, de uns cinco anos para cá, o PCC está em um processo de nacionalização e tem presença significativa em estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Sergipe e Pernambuco. Nesses e em outros lugares, no entanto, seu peso ou entrada dependerá da articulação dos grupos criminosos locais. No Rio de Janeiro, até onde sei, o PCC não entra porque lá existem outros grupos, com quem se estabelecem acordos até. Já em Santa Catarina, por exemplo, o PCC tenta alguns acordos em que fornece a droga a ser comercializada. A forma de inserção, portanto, é variada em cada estado e depende muito da estrutura local.
CC – Qual o papel que o PCC tem hoje na ‘segurança’?
CND – No caso de São Paulo, tem um papel importante uma vez que controla o monopólio de drogas e 90% dos 200 mil presos do estado hoje, sem dúvida, fonte de muito poder. Se lembrarmos as crises de segurança pública de 2001, 2006 e 2012, vemos que o PCC estava à frente de todas. Trata-se, portanto, de um ator político extremamente importante, no sentido de que tem o poder e a capacidade de desestabilizar a política de segurança do Estado.
CC – Qual a relação entre o PCC e a queda de homicídios, dentro e fora do sistema prisional?
CDN – 
Vemos uma queda vertiginosa da taxa de homicídio a partir dos anos 2000. Esse movimento começa em 2001 e se acentua a partir de 2005, período que corresponde ao momento de expansão do PCC para além do sistema prisional, estabelecendo-se nos bairros de periferia e construindo uma hegemonia fora da prisão. Penso que uma queda de 80% na taxa de homicídio não se explica só por fatores como expansão do sistema prisional, aumento da presença de ONG na periferia. No momento em que o PCC passa a mediar e regular disputas do mundo do crime, especialmente do mercado de drogas, o processo cíclico de vingança e violência anárquico de antes passa para a capacidade de controle do PCC. Se antes se tinha um mercado de drogas extremamente fragmentado e pulverizado, ocupado por grupos que entravam em conflito por território e venda, quando o PCC passa a controlar esse mercado, essas disputas deixam de existir. E, se elas ocorrem, o PCC se mostra essa instância de mediação, que acabou rompendo ciclos de vingança.
CC – E de que maneira o grupo acaba se fortalecendo?
CDN – Por ser hegemônico e ter poder consolidado, consegue garantir a manutenção da ordem social no sistema prisional. Falo em ordem na visão do Estado, com ausência de rebeliões, motins, e não de melhoria das condições das prisões, que são deploráveis. A manutenção da ordem é realmente conseguir segurar para não haver rebeliões diante das superlotações. Por conta dessa hegemonia do PCC que consegue manter essa ordem não ouvimos falar de rebelião recentemente.
CC – Como são as etapas desse processo de fortalecimento?
CDN – Há três fases. A primeira, de conquista de território, vai de sua criação dentro do anexo da Casa de Custódia de Taubaté (conhecido como Piranhão) em 1993 até 1995, quando esses primeiros integrantes do PCC são transferidos e começam a impor uma forma de domínio. Foi uma fase marcada por muita violência, uma vez que nem toda população carcerária aceitava. Houve muitas rebeliões, assassinatos de presos e instabilidade do sistema prisional paulista. Em 2001, quando o PCC faz a primeira megarrebelião em 29 unidades prisionais, passa a ser publicizado. Trata-se da segunda fase de expansão e constituição do PCC como ator politico, já que o Estado é obrigado a reconhecer sua existência e tenta uma série de ações para contê-lo, como o Regime Disciplinar Diferenciado [que prevê 23 horas em confinamento solitário], que vejo como uma fábrica de monstros. Em 2006, nos eventos de maio, o PCC explicita então a consolidação do seu poder dentro e fora das prisões. Dentro das prisões, foram 74 unidades que se rebelaram simultaneamente, enquanto do lado de fora lançaram mão de ataques a bancos, polícia etc. Acredito que os ataques de 2006 foram a gota d’água de uma crise desenhada desde 2005, marcada pela relação dos criminosos com a policia, aumento de casos de extorsão e que teve seu estopim na transferência de alguns membros para Presidente Venceslau. Depois temos um período marcado por certa estabilidade até os ataques de 2012, que foram bem pontuais e com um alvo específico: policiais militares. Foi uma reação às execuções que vinham sendo feitas pela polícia.
CC – Além da manutenção da “ordem”, dentro dos presídios como funciona o trabalho do PCC?
CDN – Não há acordos explícitos com os agentes, mas em todas as unidades do PCC há grupos responsáveis pela dinâmica prisional, seja resolvendo conflitos entre presos ou entre presos e funcionários. Tudo depende muito de cada unidade, mas em algumas o próprio PCC é quem distribui os medicamentos e produtos de higiene recebidos. Além disso, o comércio de drogas, cigarros e bebidas também é controlado pelo grupo.
CC – Existe ligação do PCC com grupos de outros países?
CDN – Acho que o PCC tem uma relação forte com produtores e intermediários do Paraguai, de onde vem maconha, e também com o Peru, que manda cocaína para o Brasil. Também já li que membros do PCC tiveram contato com integrantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), mas não se mantêm relação.
CC – O avanço e consolidação do PCC é fruto direto da política de encarceramento em massa?
CDN – Não tenho dúvida disso. Eu diria, até mesmo, que um dos principais aliados do PCC é esse processo de encarceramento em massa. Quanto mais se encarcera, mais se fortalece o PCC.  Paralelamente, fortalece-se a própria ideologia de que é importante defender o PCC para combater o Estado como inimigo. Então, quanto piores forem as condições das prisões, mais força ganha esse discurso também. Assim como quanto maior a violência policial, maior a contribuição para reforçar essa ideologia. Hoje vivemos um círculo vicioso perverso: o Estado encarcera mais e acaba reforçando o poder do PCC. As condições dos presídios são péssimas, os presos acabam saindo piores do que entraram, cometem mais crimes e voltam para as prisões.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

As dez estratégias de manipulação da mídia


O linguista e filósofo norte americano Noam Chomsky elaborou a lista das “10 estratégias de manipulação” através dos meios de comunicação. Ele afirma que nas décadas de 80 e 90 elaborou-se toda uma estratégia de manipulação dos povos através dos meios de comunicação, facilitando assim o controle da opinião pública para as estratégias e práticas adotadas pelos modelos neoliberais, que acabaram por conduzir os rumos sociais a partir dos interesses econômicos

1- A estratégia da distração – o elemento primordial do controle social.
Consiste em tirar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças ditadas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do “dilúvio” de distrações e de informações insignificantes. Essa estratégia é também indispensável para que o público não se sinta interessado por conhecimentos essenciais na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurolinguística, e da cibernética.
“Manter o público distraído, longe dos verdadeiros problemas sociais, seduzidos por temas sem importância real; manter o público ocupado sem nenhum tempo para pensar, de volta ao ‘estábulo’ com o animais.”


2- Criar problemas e depois oferecer soluções.
 Esse método também é chamado “problema – reação -solução”. Cria-se um problema, uma situação prevista para causar determinada reação no público, para que ele mesmo seja o mandante das medidas que sede seja fazer aceitar. Por exemplo, deixar que se desenvolva ou que se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, afim de que o público seja o requerente de leis de segurança e de políticas que causem danos à liberdade. Ou também criar uma crise econômica para que o retrocesso dos direitos sociais e a destruição dos serviços públicos sejam aceitos como um mal necessário.





3- A estratégia da gradação.
Para que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira, condições sócio-econômicas radicalmente novas(neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 80 e 90.
Mudanças como privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários baixos... provocariam uma revolução se fossem aplicados de uma só vez.

4- A estratégia de atrasar a realização de algo.
Outra maneira de impor uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, em determinado momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro que um imediato. Primeiro porque o esforço não é empregado imediatamente. Depois porque o público, a massa tende a esperar ingenuamente que “as coisas vão melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido será evitado. Dessa forma, acostuma-se com a ideia da mudança e ela é aceita, com resignação, quando chegar o momento.




5- Dirigir-se ao público como crianças (como criaturas de pouca idade).
A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagem se entonação particularmente infantis, muitas vezes perto da debilidade, como se o espectador fosse uma criança ou um deficiente mental. Quanto mais se tenta enganar o espectador, mais se tende a adotar um tom infantil. Por quê? Se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, pela sugestão, ela terá, provavelmente, uma resposta ou uma reação também desprovida de um sentido crítico, como uma criança.

6- Utilizar mais o aspecto emocional que a reflexão.
Essa é uma técnica clássica para causar um curto-circuito na análise racional e no sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou injetar ideias, desejos, medos, compulsões ou induzir comportamentos.









7- Manter o público ignorante e medíocre.
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controlo e escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível para que ela se torne bastante ignorante e seja impossível alcançar as classes sociais superiores”.


8- Estimular o público a ser complacente com a mediocridade.

Levar o público a crer que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.












9- Reforçar a autoculpabilidade.
Fazer o indivíduo crer que é somente ele o culpado pela sua desgraça porque não é inteligente, é incapaz e não se esforça. Assim ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, a pessoa se auto desvaloriza e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo efeito é a inibição de sua ação. E sem ação não há revolução.

10- Conhecer o indivíduo melhor que ele mesmo.

Nos últimos 50 anos, o avanço acelerado das ciências gerou uma crescente brecha entre os conhecimentos do público e aqueles utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” desfruta de um conhecimento físico e psicológico avançado do ser humano e consegue, assim, conhecer  o indivíduo com um melhor do que ele mesmo. Isso significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre as pessoas, maior do que elas sobre si mesmas.





Tradução do Espanhol: Professora Iara Valle bastos
Retirado de: http://www.forumseculo21.com.br/

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Filósofos questionam a supervalorização do amor romântico


Achei muito bacana esta matéria por questionar o amor novelesco, sempre abordei esta temática e era tirada por "mal amada" pelos colegas. Mas concordo plenamente, que este amor idealizado não é real. Criamos expectativas no companheiro (a) e só nos frustramos. É bom este tipo de matéria ser veiculada em grandes jornais, para colocar em pauta este debate e tentar, de certa forma, diminuir estes índices de doenças ocasionadas pelos nossos sentimentos/emoções.
Segue a matéria:

O amor está longe de ser a solução para o fim do sofrimento humano. Pelo menos aquele amor romântico de filmes e novelas.
Quem defende essa ideia é o filósofo Simon May, professor do King's College, em Londres, e autor de "Amor - Uma História", lançado aqui no fim do ano passado.
Para ele, o sentimento está supervalorizado: ocupou o espaço deixado pela religião e se tornou o novo deus do Ocidente.
"Somos todos fanáticos. Exigimos que nosso sentimento seja eterno e incondicional e camuflamos sua natureza condicional e efêmera. É a mais nova tentativa humana de roubar um poder divino", disse, em entrevista à Folha.

Lambe-lambe que pede "Mais amor, por favor", no viaduto Antártica, em São Paulo


De acordo com o filósofo, a religião do amor incondicional é reforçada pela cultura. Ele cita filmes em que um dos personagens não quer saber de namorar e só pensa na carreira. No final, ele sempre descobre que sem uma paixão sua vida não será completa.
Tanta pressão em cima de um sentimento frágil e humano, para o autor, termina em frustração coletiva. "Nada humano é verdadeiramente incondicional, eterno e completamente bom. Essa é uma forma de amor que só Deus pode ter. Esse entendimento gera expectativas altas, que relacionamentos cotidianos não são capazes de suprir."
O mesmo defende o filósofo alemão Richard David Precht, autor de "Amor - Um Sentimento Desordenado". "O papel de nos aceitar por inteiro, com todos os nossos defeitos e limitações, cabia a Deus. Hoje buscamos alguém que possa cumprir essa função e ainda dormir conosco. É realmente pedir demais", diz.
ROMANTISMO
No livro, Simon May traça um histórico das diferentes concepções de amor ao longo da história e atribui ao romantismo do século 19 a culpa pela supervalorização do sentimento.

Segundo ele, desde então, enquanto a sociedade mudou, a idealização do sentimento continua como no passado. Inovações como a liberação sexual, a pílula e a luta pelos direitos dos gays só possibilitaram que mais pessoas passassem a perseguir o amor ideal ao incluir homossexuais e divorciados no jogo.
A psicanalista Regina Navarro Lins também pesquisou a história do sentimento, mas chegou a uma conclusão diferente. "O amor romântico está com os dias contados. Domina filmes e novelas, mas está saindo de cena na vida real", afirma ela, que em 2012 publicou "O Livro do Amor", obra em dois volumes.
Para a psicanalista, o futuro aponta para o "poliamor" e para formas menos convencionais que o casamento. "As pessoas estão mais individualistas, buscam sua própria satisfação. Isso irrita os conservadores, mas aumenta as chances de cada um ser feliz", diz.
Navarro Lins, no entanto, concorda com Simon May ao considerar o amor romântico irreal. "Você conhece uma pessoa, atribui a ela características que ela não possui e passa a vida infernizando a criatura, querendo que ela seja como você imaginou", diz a psicanalista.
A troca de exigências gera um "rancor matrimonial", uma sensação de que o parceiro nos enganou ao não cumprir nossas expectativas.
Simon May não acredita que a solução seja dar menos importância ao sentimento, mas rever os conceitos. "Precisamos mudar nossas expectativas, não reduzi-las. É preciso abandonar a ideia de que amor implica em intimidade incondicional, benevolência e altruísmo. Para mim, amor é algo completamente condicional. Ele só existe enquanto a outra pessoa parece dar sentido à nossa existência."

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/1211142-filosofos-questionam-a-supervalorizacao-do-amor-romantico.shtml





quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Na visão da periferia, PCC reduziu crimes, diz canadense que estuda violência em São Paulo


Baixos salários, falta de investimento, de funcionário especializado e de reconhecimento do trabalho são os problemas apontados pelo pesquisador canadense Graham Denyer Willis para a crise na segurança pública que atinge o Estado de São Paulo.
Willis veio ao país em 1996 fazer um intercâmbio e desde então acompanha a questão da criminalidade.
Em 2005, ficou intrigado com o resultado do referendo sobre armas de fogo e resolveu pesquisar o motivo de a maioria dos brasileiros ser contra a proibição da venda mesmo com o alto índice de homicídio no pais.
Foi quando ele descobriu o PCC (Primeiro Comando da Capital) --facção criminosa que atua nos principais presídios do pais-- e aprofundou sua pesquisa, que deve virar um livro após a conclusão.
Para o especialista, a facção é responsável pela queda nos índices de criminalidade em algumas regiões da capital paulista. "Os moradores falaram que, quando o PCC chegou, [os criminosos] estabeleceram uma ordem forte do que pode ser feito e do que não pode ser feito dentro da comunidade", declarou Willis.
O canadense é candidato a pós-doutorado em estudos e planejamento urbano no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), pesquisador visitante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pesquisador sênior do Instituto Igarapé.
Logo após os ataques do PCC de 2006, Willis passou cerca de quatro meses morando em uma das comunidades dominadas pela facção em São Paulo. O bairro não será divulgado por motivos de segurança, já que o pesquisador ainda não concluiu seu trabalho.
"Foi ficando perigoso passar muito tempo na comunidade, perguntando coisas, falando com as pessoas, e resolvi entender o outro lado. Como a polícia interagia com essas comunidades e como era o impacto do PCC no trabalho da polícia", afirmou Willis.
Neste ano, o canadense começou a acompanhar o trabalho dos policiais em uma delegacia de São Paulo, que ele também prefere não divulgar para não atrapalhar seu relacionamento com os policiais.
A pesquisa ganhou destaque após a publicação, no dia 1º dezembro, do artigo "O que está matando a polícia brasileira?" do jornal americano "The New York Times".
No texto, o especialista diz que o alto número de policiais militares assassinados este ano (quase cem) está relacionado aos salários baixos e a falta de apoio oferecida pelo Estado aos PMs.
Em entrevista ao UOL, Willis conta que ficou muito impressionado com as condições de trabalho da polícia paulistana e com a falta de confiança da população nos policiais.
UOL - O que você observou pesquisando o PCC?
Willis - O que foi interessante é que foi logo depois dos ataques do PCC em 2006, mas a pesquisa também foi feita na época em que o governo dizia que a queda de homicídios era devida ao trabalho da polícia. Foi uma queda grande, de 75%. Mas na visão da periferia não era nada disso. Até 2002, mais ou menos, quem estava morrendo era jovem entre 15 e 29 anos. Chegou um ponto, em 2003, 2004, que o PCC chegou de fato nas ruas e fez uma união entre os grupos menores armados que estavam na periferia.
Os moradores falaram que, quando o PCC chegou, [os criminosos] estabeleceram uma ordem forte do que pode ser feito e do que não pode ser feito dentro da comunidade E que se acontecesse alguma coisa tinham que falar com eles. Um sistema de lei e ordem bem diferente. São as regras que estão no estatuto. Já tem dois estatutos, um bem recente. Aí na comunidade não era só quem estava batizado, mas quem morava na comunidade que também não podia desobedecer as regras do PCC. E eles falam que antes era muito pior, [havia] briga entre policia e bandido, morria muito gente. Não podiam sair na rua à noite. Depois que chegou o PCC, estabeleceu essa ordem. Todo mundo sabe que se desobedecer vai ser julgado, sabe o que vai acontecer. Violar mulher, por exemplo, todo mundo sabe que é um crime muito grave e que o cara vai desaparecer ou vai morrer. Então, a taxa de homicídio nesses bairros caíram muito por causa disso. Na visão da periferia, nas comunidades onde o PCC controla, o PCC tem muito a ver com a queda dos homicídios, desde 2003, 2004. O Gabriel [de Santis] Feltran escreveu um livro ["Fronteiras de Tensão"] muito importante sobre isso.
Se você vir os dados de 1999, por exemplo, as comunidades que tinham mais problema com violência, são as que hoje estão dominadas pelo PCC, como Sapopemba, Jardim Angela, Cidade Tirandentes, Capão Redondo, Campo Limpo.  Depois do PCC, a taxa [de criminalidade] nessas comunidades caiu muito.
Quando você resolveu pesquisar a polícia?
A relação entre cidadão e a policia no Brasil sempre foi muito difícil porque tem a história muito profunda de que essa policia estava nas ruas durante a ditadura. E não tinha quase ninguém pesquisando a policia, para acompanhar, para saber qual é a realidade da rua, dos policiais que ganham um salário muito baixo, que moram na periferia. Eu conheci vários policiais que falavam que moravam em Sapopemba, em Campo Limpo, nesses lugares onde estão o PCC. Aí eu fiquei muito surpreso porque, então, o cara sabe quem manda na comunidade. E quando acontece alguma coisa nesses lugares, os moradores não avisam os policiais que moram lá, porque o PCC não vai gostar e vai ser resolvido com eles. Fiquei impressionado. Como esse policial faz, então, se ele tem que morar nessa comunidade, totalmente desmoralizado, ninguém quer saber quem ele é e, se souber, não vai gostar dele? Como ele faz o seu trabalho? Achei um problema muito grande e quis pesquisar melhor. Fui atrás de entender melhor.
Sobre falta de estrutura para o trabalho da polícia, você chegou a constatar alguma coisa?
O policial da rua, o investigador, o soldado ou o cabo têm uma realidade diferente da dos [policiais] mais altos, de quem manda. É muito difícil que os policiais que mandam, que fazem política, que estão mais ligados ao governador, saibam bem qual é a realidade da rua. Essas pessoas nunca moraram em uma favela, nunca viveram em uma condição de ganhar R$ 600, em que ele teve que trabalhar em mais três, quatro, bicos para poder pagar a escola da filha. Então fica difícil até porque o policial que está na rua nunca vai chegar ao ponto de ser chefe. (...) O que ainda é pior dentro da Polícia Militar. A instituição militar não tem espaço para a criatividade, para diálogo, não pode falar com seu superior, você é subordinado totalmente. As suas ideias não importam, são as ideias de quem mandam que são importantes. Só que quem manda não conhece bem a realidade das ruas.
O que mais você observou de dificuldade no trabalho dos policiais?
Salário é difícil, recurso é muito difícil. Por exemplo, tem muita gente falando sobre o trabalho de investigação hoje em dia, falta muito perito. Só em casos mais importantes, como homicídio, é que vai perito. Em casos gerais, dificilmente perito vai. A investigação precisa de muito mais recurso porque um caso não vai ser resolvido sem investigação.
Você chegou a pesquisar o valor ideal para o salário de um policial?
Não. Foi mais conversas com policiais. O salário do policial [soldado da PM em São Paulo] é de R$ 2.000 e pouco [com as gratificações], só que o cara tem que trabalhar em dois bicos em que, às vezes, pagam mais do que isso. Para sustentar mesmo família, viver em condições dignas, ele tem que ganhar mais ou menos o triplo do salário. Então, é uma situação muito difícil.
Isso seria uma das causas para a corrupção policial?
Em geral, fala-se isso. Por exemplo, esse policial que ganha R$ 2.000, que vai atrás do crime organizado e que de repente pega um cara que tem muito dinheiro na mão, com R$ 5.000 no bolso. Esse policial, que ganha muito mal, fica numa situação difícil porque ele sabe que pode pegar, pode levar, e vai ser muito difícil alguém ir atrás dele. O cara pode até ter muito moral, falar que é honesto, mas com o tempo é muito difícil não entrar na onda porque esse cara não consegue sair da comunidade onde foi criado, que é onde tem esses criminosos mais poderosos. Claro que ele quer sair, mas fica difícil.
O que você observou do papel do Estado durante essas situações críticas?
No meu entender, o policial de baixo escalão fala que não faz parte do Estado. Ele tem esse sentimento de que quem manda está em outro sistema totalmente diferente do dele. Ele fala "o Estado faz isso, que manda" como se ele não fizesse parte daquilo, como se a polícia não fizesse parte desse Estado que manda. Ele se sente deslocado de quem está falando como deve ser e como vai melhorar.
Do que você pesquisou até agora, o que precisa ser feito para melhorar o sistema de segurança do Estado?
A questão do salário é muito importante, mas não é o ponto central.  Outra coisa, é que o policial em geral tem que ser valorizado dentro das suas próprias comunidades. Por exemplo, seria muito bom chegar a um ponto em que o morador reconheça que o policial mora do seu lado e que se houver algum problema, ele pode procurar o policial, que ele vai entender, vai encaminhar para o lugar certo, alguém de confiança. Tem que fortalecer muito mais a investigação, para apurar os casos, desenvolver bem melhor do que o que está sendo feito agora. Tanto casos de homicídios, como de outros. A demora é muito grande para investigar, tem casos em que a pericia nem chega ao local do crime. Para fazer um laudo, demora mais de um mês. Então, é muito difícil. Em geral, a polícia tem que ser mais valorizada e receber mais investimento. Ficou desse jeito agora porque a população não confia na policia e tem razões históricas pra isso. A política acabou se afastando da polícia também. É mais fácil contratar segurança privada do que confiar na polícia. É importante que a política lá em cima tente reformar a visão da policia em geral. Tentar mudar a ideia de que policial é corrupto ou violento ou os dois para a que o policial está trabalhando para melhorar a sociedade e está do lado do cidadão. E que não precisa ser um policial violento, e sim um policial investigativo. Tem que valorizar uma polícia que seja mais proativa do que reativa.
Do início da sua pesquisa até o momento, você percebeu alguma mudança nas ações do Estado? Alguma melhora?
Já melhorou um pouco. A corregedoria, por exemplo, foi para a Secretaria de Segurança Pública em vez de ser da Polícia Civil. Teve algumas mudanças estruturais dentro da instituição que foram importantes. Mas você vê que essas mudanças só acontecem depois de algum caso polêmico. Os ataques de 2006, por exemplo, o caso daquela escrivã despida à força, tem esses casos polêmicos que saem na mídia e o Estado acaba reagindo e faz alguma coisa. Os avanços foram por causa disso, em vez de investimento, é reação. Tem que ser mais proativo do que reativo.
PS: Achei interessante essa matéria, pois vai de encontro ao que trabalhei no semestre passado sobre a criminalidade e suas novas formas de estabelecer uma subcultura própria, como mecanismo de dominação. Depois posto o texto que produzi.




segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

De repente, classe C



Sou ex-pobre. Todos querem me vender geladeira agora. O trem ainda quebra todo dia, o bairro alaga. Mas na TV até trocaram um jornalista para me agradar

Eu me considerava um rapaz razoavelmente feliz até descobrir que não sou mais pobre e que agora faço parte da classe C.
Com a informação, percebi aos poucos que eu e minha nova classe somos as celebridades do momento. Todo mundo fala de nós e, claro, quer nos atingir de alguma forma.
Há empresas, publicações, planos de marketing e institutos de pesquisa exclusivamente dedicados a investigar as minhas preferências: se gosto de azul ou vermelho, batata ou tomate e se meus filmes favoritos são do Van Damme ou do Steven Seagal.
(Aliás, filmes dublados, por favor! Afinal, eu, como todos os membros da classe C, aparentemente tenho sérias dificuldades para ler com rapidez essas malditas legendas.)
A televisão também estudou minha nova classe e, por isso, mudou seus planos: além do aumento dos programas que relatam crimes bizarros (supostamente gosto disso), as telenovelas agora têm empregadas domésticas como protagonistas, cabeleireiras como musas e até mesmo personagens ricos que moram em bairros mais ou menos como o meu.
A diferença é que nesses bairros, os da novela, não há ônibus que demoram duas horas para passar nem buracos na rua.
Um telejornal famoso até trocou seu antigo apresentador, um homem fino e especialista em vinhos, por um âncora, digamos, mais povão, do tipo que fala alto e gosta de samba. Um sujeito mais parecido comigo, talvez. Deve estar lá para chamar a minha atenção com mais facilidade.
As empresas viram a luz em cima da minha cabeça e decidiram que minha classe é seu novo alvo de consumo. Antes, quando eu era pobre, de certo modo não existia para elas. Quer dizer, talvez existisse, mas não tinha nome nem capital razoável.
De modo que agora elas querem me vender carros, geladeiras de inox, engenhocas eletrônicas, planos de saúde e TV por assinatura. Tudo em parcelas a perder de vista e com redução do IPI.
E as universidades privadas, então, pipocam por São Paulo. Os cursos custam R$ 200 reais ao mês, e isso se eu não quiser pagar menos, estudando à distância.
Assim como toda pasta de dente é a mais recomendada entre os dentistas, essas universidades estão sempre entre as mais indicadas pelo Ministério da Educação, como elas mesmas alardeiam. Se é verdade ou não, quem pode saber?
E se eu não acreditar na educação privada, posso tentar uma universidade pública, evidentemente. Foi o que fiz: passei numa federal, fiz a matrícula e agora estou em greve porque o campus cai aos pedaços. Não tenho nem sala de aula.
Não que eu não esteja feliz com meu novo status de consumidor, não deve ser isso. (Agora mesmo escrevo em um notebook, minha TV tem cem canais de esporte e minha mãe prepara a comida num fogão novo; se isso não for felicidade, do que se trata, então?)
O problema é que me esforço, juro, mas o ceticismo ainda é minha perdição: levo 2h30 para chegar ao trabalho porque o trem quebra todos os dias, meu plano de saúde não cobre minha doença no intestino e morro de medo das enchentes do bairro.
Ou seja, ao mesmo tempo em que todos querem me atingir por meu razoável poder de consumo, passo por perrengues do século passado. Eu e mais de 30 milhões de pessoas -não somos pobres, mas classe C.
Deixa eu terminar por aqui o texto, porque daqui a pouco vão me chamar de chato ou, pior, de comunista. Logo eu, que só li Marx na versão resumida em quadrinhos. Fazer o quê, se eu gosto é de autoajuda?

LEANDRO MACHADO, 23, é estudante de letras na Universidade Federal de São Paulo, mora em Ferraz de Vasconcelos (SP) e escreve no blog Mural, da Folha

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/54594-de-repente-classe-c.shtml

Este texto foi utilizado na aula da pós graduação em Sócio psicologia, na disciplina de Sociologia Contemporânea. Achei muito bacana e por isso quis compartilhar, visto que o mesmo representa muito bem, e com a dose certa de sacarmo, a atual classe C. 
É uma reflexão muito interessante, pensar que a nova "classe" C é intitulada de acordo com a visão dos economicistas, mas quais simbologismo é pertencente a essa classe? Será que mesmo com uma renda de classe C a cultura e o Habitus desse grupo são aceitos socialmente dentro deste norte?

É ainda tem muito que se pensar sobre este novo fenômeno...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Sociólogo analisa obra que retrata a culinária paulista do final do século 19


Todo paulista deveria ir, ao menos uma vez na vida, à Pinacoteca do Estado. Indo à Pinacoteca, deveria estacionar diante do quadro de Almeida Júnior, "Cozinha Caipira" (1895).
Diante do quadro, vasculhar os componentes da cozinha e demorar-se na solidão da mulher de cócoras, catando feijão na peneira -iluminada pela luz estreita que atravessa a porta, a mostrar a posição herdada dos índios.
Diante da sua solidão, meditar sobre o verso de João Cabral de Melo Neto: "Catar feijão se limita com escrever".
O quadro de Almeida Júnior expressa uma ideia profunda sobre o caipira: o abandono na pobreza. Tudo é tosco, caindo aos pedaços (como as paredes), sem que qualquer elemento tenha grandeza e dignidade.
O forno romano (que hoje chamamos "forno de pizza"), à esquerda em primeiro plano, tem uma história maravilhosa de Roma a nossos dias, passando pela Catalunha medieval, de onde se difundiu. Mas está lá, desmilinguido, incorporado ao quadro como ruína de antiga civilização.
O banquinho indígena, em primeiro plano, à direita, evoca outra ruína civilizatória, como a perguntar: o que fizemos com os índios?
No segundo plano, à esquerda, um grande pote vazio, ladeando um pilão talhado em tronco de árvore. Ao fundo, o fogão a lenha, sobre o qual se vê no fumeiro uns embutidos e um pedaço de toucinho de porco; à direita do fogão, a porta que tem por sentinela uma galinha e oseu minúsculo pintinho. E, ao fundo, no quintal, um verde milharal.
Editoria de Arte/Folhapress
A POBREZA DO JECA
Milho, galinha, toucinho, feijão catado -coisas que, combinadas com simplicidade, hoje achamos iguarias, mas que expressam justamente a pobreza do Jeca que Monteiro Lobato descreveria algumas décadas depois.
Da representação da pobreza em "Cozinha Caipira" à materialização do requinte de hoje, a culinária parece ser esse terreno onde deslizamos do presente ao passado sem tropeçar no fato de que encarna uma história que preferimos apagada pelo tempo.
Relações sociais dramáticas, de uma civilização de frangalhos, plasmadas hoje como coisas saborosas.
Massacramos os índios e nos vimos como heróis, bandeirantes. Recobrimos tudo com pizza e molho de tomate; além dos sushis e quibes, é claro. São Paulo não tem história digna desse nome porque ela é feia, muito feia.
Sangue e pobreza. Importamos a história culinária dos imigrantes junto aos sabores que competem com a cozinha caipira. Mas Almeida Júnior está na Pinacoteca justamente para nos lembrar dessa outra história. A história de cócoras.
E quando comemos feijão com toucinho ou linguiça, ou quirerinha de milho com frango ou suã de porco, somos um pouco como os índios ianomâmi. Seus mortos, feitos em cinzas e misturados a outras coisas, eles comem em silêncio para que sejam esquecidos e, assim, ultrapassem os umbrais do Paraíso.
Carlos Alberto Dória é sociólogo, autor do livro "A Formação da Culinária Brasileira" (ed. Publifolha) 
Conheça a obra
Onde Pinacoteca
Endereço Praça da Luz, 2, tel. 0/xx/11/3324-1000

Blog do Carlos: http://ebocalivre.blogspot.com.br/


Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/comida/1195842-sociologo-analisa-obra-que-retrata-a-culinaria-paulista-do-final-do-seculo-19.shtml

quinta-feira, 18 de outubro de 2012


“Assim como os instrumentos de trabalho mudam historicamente, os instrumentos de pensamento também se transformam historicamente. E assim como novos instrumentos de trabalho dão origem a novas estruturas sociais, novos instrumentos dão origem a novas estruturas mentais.”
L.S.VYGOTSKY 
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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Artista faz série de autorretratos sob o efeito de várias drogas


Um artista encontrou uma maneira pouco ortodoxa de obter uma visão diferente de si mesmo e da sua arte. Bryan Lewis Saunders, 43, resolveu fazer uma série de autorretratos sob o efeito de diferentes drogas. Ao "F5", ele contou que a ideia surgiu após ele se mudar para um prédio em que "havia muita pessoas cujas vidas aconteciam ao redor das drogas"". O experimento aconteceu em agosto de 2001, mas voltou a bombar na web semana passada. Para ser realizado, ele usou cerca de 18 drogas --remédios controlados, maconha, cocaína, entre outras-- em 11 dias. Algumas delas foram consumidas em conjunto, mas ele não sabe precisar a quantidade exata que usou de cada uma. Saunders contou que já tinha provado algumas substâncias, mas que nunca tinha trabalhado sob o efeito delas. "Eu só provava as drogas que as pessoas me davam quando batiam em minha porta". Das 18 drogas, o artista disse que é fácil dizer qual produziu os melhores efeitos, o Xanax, um ansiolítico que foi "consumido em doses desconhecidas pelos hospitais", como ele mesmo descreve em uma de suas obras. A obsessão de Saunders com autorretratos começou bem antes do experimento. Em 1995, ele decidiu fazer um retrato seu por dia. "Tive duas razões para fazer isso. Queria ver se a arte podia ser terapêutica e me ajudar a criar sentimentos. E eu pensei que, se todo dia era um novo dia, então nenhum desenho deveria ser igual ao outro", contou.Além de artista plástico, Bryan também faz permances ao vivo e é videomaker. 

2mg de Xanax

2mg de chiletes de nicotina

4mg de Dilaudid

Uma taça do "verdadeiro" absinto (não aquela porcaria falsa)

10mg de Ambien

7.5mg Hydrocodone / 7.5mg Oxycodone / 3mg Xanax

Sais de banho

15mg de Buspar (inalado)

Óleo de haxixe extraído com butano

1/2 gramas de cocaína

1 dose de cristais de metanfetamina

Morfina IV (dosagem desconhecida)

G13 Marijuana (espécie de maconha

Ativan e Haloperidol (dosagem desconhecida em hospitais)

Fonte: http://f5.folha.uol.com.br/humanos/1137075-artista-faz-serie-de-autorretratos-sob-o-efeito-de-varias-drogas.shtml