Mostrando postagens com marcador Mundo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mundo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 15 de julho de 2014

Guerra às drogas: “por que não tentar o diferente depois de tanto fracasso?”

video-pod-st-high-price-articleLarge-v3
Para Carl Hart, “a guerra às drogas não fracassou; ela é um grande sucesso para que políticos evitem lidar com os problemas de justiça social”.
A política de proibição e de guerra às drogas provou-se um monumental fracasso no mundo inteiro. Se, por um lado, o consumo de drogas ilícitas não diminuiu, por outro, houve uma assustadora escalada da violência associada ao tráfico de entorpecentes, resultando no assassinato e no encarceramento em massa de milhares de cidadãos – em especial aqueles pertencentes a estratos sociais vulneráveis. Diante desse impasse, aumenta o coro das vozes progressistas que reforçam a necessidade da revisão das práticas truculentas de proibição às drogas, propondo uma abordagem mais humana para lidar com o problema.
É nesse contexto de necessidade de proposição de novas políticas públicas que anfiteatro da Unifesp, em São Paulo, recebeu, na tarde de terça-feira (13), dois pesquisadores estrangeiros com larga experiência no assunto.
No Brasil por ocasião do lançamento de seu livro Um Preço Muito Alto (Editora Zahar), Carl Hart, neurocientista e professor da Universidade de Columbia, compartilhou sua história de vida com a plateia que lotou o anfiteatro da universidade.
UmPrecoMuitoAlto
Clique aqui para adquirir seu exemplar com desconto
Negro e pobre, Hart cresceu na periferia de Miami e teve trajetória parecida com a de muitos jovens afro-americanos nos guetos: praticou pequenos furtos, usou e traficou drogas. Desprovido de condições econômicas para matricular-se em uma universidade, alistou-se no exército americano na década de 1980 e, em serviço militar na Inglaterra, teve o privilégio de receber uma educação crítica que lhe abriu os olhos para as desigualdades e a discriminação racial em seu país natal. Ao voltar para os Estados Unidos, dedicou-se à pesquisa científica em assuntos relacionados ao uso de drogas, tornando-se, por fim, doutor em neurociência. “Eu pude me tornar o cientista que sou graças a programas de assistência social que, infelizmente, foram dramaticamente reduzidos por sucessivos presidentes americanos desde Ronald Reagan, inclusive os democratas”, analisou Hart.
Aliando a experiência de ter crescido nos guetos norte-americanos – e, por essa razão, ter vivenciado o impacto deletério das políticas repressoras do consumo de entorpecentes – ao rigor das análises científicas, o Dr. Carl Hart têm chamado a atenção por suas opiniões e estudos que desconstroem conceitos cristalizados sobre o vício em drogas. “É corrente a ideia de que basta uma dose de crack ou de cocaína para que, magicamente, a pessoa passe a ser viciada. O vício, por definição, exige o uso intenso e prolongado. Quem afirmar o contrário, está espalhando uma mentira científica”, provocou Hart.
O neurocientista compartilhou os resultados de testes realizados com viciados em crack, nos quais lhes era oferecido uma dose da droga ou uma determinada quantia em dinheiro. “Quanto maior o valor, mais os viciados optavam por ele. Isso indica que, se devidamente motivados, eles tomam decisões racionais como qualquer outra pessoa”, comentou. “As pessoas não usam drogas por serem loucas. As pessoas usam drogas porque elas são efetivas. Se a pessoa se vicia em crack, é porque ele tem o efeito desejado para aplacar momentaneamente os efeitos da angústia e do desamparo social.”
Em seguida, o Dr. Carl Hart ironizou o fracasso da política de repressão às drogas. “A chamada ‘guerra às drogas’ não fracassou. Ela é um grande sucesso para as autoridades empenhadas nessa missão e que ganham dinheiro às custas disso. Ela é um grande sucesso para que políticos evitem lidar com os problemas de justiça social – eles podem desumanizar todos os problemas, colocando a culpa nas drogas e deslocando a raiz da ruína social. Assim, eles não precisam tratar de temas como a falta de educação, o desemprego e a falta de assistência social.
Sobre o impacto social da criminalização da questão das drogas nos Estados Unidos, sobretudo na população negra, Hart foi enfático. “Gastam-se mais de 26 bilhões de dólares por ano no combate às drogas. Um investimento dessa envergadura exige retornos práticos e diretos. O resultado é que a principal motivo de encarceramento no país é a violação da política de proibição de narcóticos, atingindo de maneira brutalmente desproporcional a população negra, que constitui 12% da população americana, mas 75% dos condenados por transgressão da legislação antidrogas. Os negros acabam virando um bode expiatório”. Segundo o neurocientista, o Brasil repete o modelo que se provou desastroso nos Estados Unidos, ao promover a militarização das favelas e endurecer a repressão.
Outra convidada internacional presente ao debate realizado na Unifesp, a uruguaia Raquel Peyruabe, médica especializada no uso problemático de drogas e Assessora da Secretaria Nacional de Drogas do Uruguai, comentou as razões que levaram o país a aprovar um projeto de regulamentação da maconha, a ser implantado ainda este ano.
“A decisão de promover políticas públicas inovadoras, que vão na contramão das práticas de proibição, veio da constatação da ineficácia do modelo anterior. O Uruguai vinha presenciando um aumento dos índices de violência associados ao tráfico de drogas que, embora possam parecer pequenos se comparados aos de países vizinhos, eram insuportáveis para os padrões locais”, analisou.
Peryuabe ressaltou que a aprovação do modelo de regulamentação da maconha foi fruto de longo e frutífero processo de discussão política, do qual fez parte setores da sociedade civil. “A regulamentação da venda da maconha é apenas uma parte da nova legislação do Uruguai em relação às drogas. Faz parte de um projeto mais abrangente, que envolve medidas socioeducativas e de saúde para lidar com a questão”.
Depois de aprovado pela câmara, o projeto foi fortemente contestado pela oposição, pela mídia e por setores majoritários da população. Para combater a euforia negativa, o governo investiu pesadamente em um plano de mídia, informando com clareza à população as intenções da nova política e desconstruindo, ponto a ponto, com dados objetivos, os principais argumentos de oposição à regulamentação da maconha. A medida surtiu efeito e as pesquisas de opinião indicam que as taxas de desaprovação vêm caindo. “Mesmo quem ainda é contra as medidas, já sabe reconhecer seus potenciais benefícios. O importante é dialogar de maneira objetiva com a população. Mesmo que o cidadão seja ignorante sobre as questões relativas à legalização, ele compreende dilemas práticos como: ‘a partir do princípio de que os usuários vão comprar a maconha de qualquer maneira, onde vocês preferem que eles comprem: com traficantes portando revólveres ou em uma farmácia, com toda segurança?’”, disse Peryube.
Raquel considera que é do interesse de todos torcer pelo o sucesso da nova política uruguaia, que pode desencadear uma tendência em todo o continente. “Faço sempre a pergunta: por que não tentar o diferente depois de tanto fracasso? Se não estamos satisfeitos com a realidade, por que não tentar o novo, o diferente? Tudo aquilo que a população teme que ocorra com a regulação já está, de fato, acontecendo. O mercado já foi regulamentado, mas pelo crime organizado. Temos de mudar o lado da regulação. Se as substâncias psicoativas são perigosas, é o Estado que deve regular, não o crime”, concluiu a uruguaia.
*Fonte: http://www.outraspalavras.net/outroslivros/guerra-as-drogas-por-que-nao-tentar-o-diferente-depois-de-tanto-fracasso/

terça-feira, 3 de junho de 2014

Precisamos nos drogar para não sucumbir?

São infinitas as formas com que o ser humano conseguiu, através de uma paixão, resistir à dureza, à violência e à monotonia da existência.
Há um aspecto das drogas do qual pouco se fala, porque o ser humano ou se droga de algum modo ou enlouquece. A falácia radica em que hoje chamamos de droga tudo que pode ser uma âncora para poder sobreviver sem perder o gosto pela existência.
Chamamos de droga tudo que nos oferece prazer, do sexo à comida e não só os estupefacientes químicos. Na verdade, mais que de drogas, trata-se de “paixões”, como se apelidavam antes que o comércio milionário e violento das drogas químicas se apropriasse da palavra.
Desde os tempos mais antigos, o ser humano se drogou em busca de uma alteração da consciência que lhe produzisse prazer e alegria e lhe permitisse esquecer as agruras da vida. Fez isso até ritual e religiosamente, usando as plantas e tudo que alterava os sentidos.
Os psicólogos alertam que o ser humano – assim como provavelmente muitos dos animais – enlouqueceria se não tivesse paixão por algo. Podem ser grandes ou pequenas paixões, mas necessitamos de algo que nos excite, ofereça-nos ilusão a cada dia que amanhece e a cada noite em que nos rendemos ao sono.
São infinitas as formas com que o ser humano, através de uma paixão que lhe ofereça algum tipo de satisfação, conseguiu resistir à dureza da existência, a sua monotonia ou a sua violência.
Busca-se essa paixão ou essa droga por todos os meandros de nossa vida. Pode ser o poder como afrodisíaco, o sexo, o amor, a leitura, a arte ou a paixão pela natureza. E até a religião.
Pode ser que haja paixões que consideramos mais nobres que outras, mas no final são todas elas um medicamento mais ou menos ilustre que nos impede de enlouquecer.
Há quem se refugie na fruição das drogas químicas, ou do álcool. Uma grande paixão de amor é também uma grande droga até o ponto em que se diz, sobre as pessoas que a vivem, que parecem enlouquecidas.
Atribui-se uma periculosidade especial às drogas, às quais se diferencia das paixões, porque elas podem levar à morte e alterar nossa capacidade cerebral. Entretanto, igualmente perigosa e letal pode ser uma grande paixão de amor ou sexual.
Quantos se suicidaram no mundo por amor, ao não ser correspondidos ou não conseguir superar essa paixão? Ou mataram arrastados por ela? O jogo e o poder são outras paixões que podem levar ao suicídio. Mas o que produziria mais morte no mundo seria a falta de paixões. Sem elas, o ser humano ou enlouqueceria ou se embruteceria.
Pode ser uma droga também a paixão pelo exercício físico ou até pela religião, qualificada por Marx de “ópio do povo”, mas o certo é que o fato religioso pode chegar a ser uma das drogas mais fortes capazes de alterar as consciências. Basta recordar os grandes místicos, seus êxtases e suas paixões por imitar o Crucificado.
Já houve místicas que passaram até meses sem comer, alimentando-se da Eucaristia, e até sem dormir E os santos com chagas, como Francisco de Assis ou, em nosso tempo, o Padre Pio? Hoje a ciência sabe que essas chagas são produzidas por esses místicos com a força de sua paixão pela identificação com Cristo. Existe maior droga? E os mártires? Alguns médicos agnósticos me confessaram que morrem menos desesperados aqueles que têm nesse momento a âncora de alguma fé religiosa.
O ser humano, apesar de toda sua arrogância externa, nasce frágil e carrega essa fragilidade física e psíquica por toda a vida. Ninguém nasce destinado à felicidade, que é paradoxalmente uma conquista dolorosa. Nenhum bebê nasce rindo, nasce chorando talvez de medo e de estupor.
A vida por si mesma nem sempre basta para uma realização total das ânsias de felicidade e de conquista do Homo sapiens. O homem, para melhor realizar-se e melhor lutar contra suas frustrações, necessitará de alguma paixão se não quiser sucumbir ou render-se à mediocridade.
Poucas drogas são mais fortes na vida, por exemplo, que uma amizade verdadeira, sincera, forte, inquebrável. É o melhor antídoto contra a solidão.
Existem as drogas consideradas positivas e as negativas, como existem os verdadeiros e falsos amores. Entre as negativas, poucas são tão fortes e tão letais, em nossa existência, como a solidão forçada, a falta de amor ou o abandono dos que amávamos.
Até no ser humano que se sente realizado segue viva em seu interior, como uma ameaça latente, essa fragilidade com que todos nascemos.
Entre os satisfeitos ou falsamente satisfeitos com sua fatia de poder e autossatisfação, pulsa, filho dessa fragilidade congênita, o medo de perder seu paraíso
Sem algo que o sacuda da rotina e da mediocridade, o ser humano, do mais culto ao mais analfabeto, cairia na infelicidade. Às vezes, entretanto, uma pequena paixão ou alegria, como o perfume do café ao despertar; o sorriso de um filho ou um neto, a ajuda generosa e desprendida a alguém que chega até você em busca de ajuda e de consolo, pode constituir a melhor e mais poderosa droga para poder continuar apreciando a vida.
Podemos até alterar nossa consciência, por exemplo, com a fruição de uma música, com a contemplação de uma pintura que nos empolga e até com o esplendor de um arco-íris, como o que esta manhã, depois de uma chuva outonal, surgiu como um deus, sobre o Atlântico que tenho diante de meus olhos ao escrever.
Pode alguém drogar-se com a beleza ou com uma leitura o apaixone? A melhor droga seria na verdade a vida em si, mas às vezes, para tantos, é tão cruel, que precisam temperá-la e adoçá-la com alguma paixão. Quando até isso falta, a noite se torna duplamente escura.
Por que estão aumentando no mundo a depressão e o estresse?
Possivelmente por falta dessas pequenas ou grande paixões que são o melhor remédio para desfrutar a vida e fugir de sua crueldade e frustração.
Sem alguma paixão que nos sacuda de dentro, até um amanhecer acabará ferindo nossos olhos acostumados à escuridão das noites vazias e até o silêncio nos fará um ruído insuportável.
Embalados, em vez disso, por alguma paixão, tudo recupera o frescor e a beleza do primeiro dia da criação.

*Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/06/01/opinion/1401657357_559577.html


quarta-feira, 14 de maio de 2014

A Anistia Internacional critica postura ‘hipócrita’ dos países em relação à tortura

A Anistia Internacional detectou casos de tortura ou maus tratos em 141 países ao longo dos últimos cinco anos, segundo o relatório “Parar a tortura” apresentado nesta segunda-feira em Londres. O texto denuncia designadamente a atitude “hipócrita” dos governos no continente americano, onde a existência de duras legislações contra a tortura não impede que esta se siga praticando.
“Eletrochoques. Surras. Abuso sexual. Humilhação. Simulações de execuções. Queimaduras. Privação do sonho. Torturas com água. Horas e horas em posturas forçadas. O uso de pinças, drogas e cães. São palavras que por si só soam como um pesadelo. Mas a cada dia, em cada canto do mundo, estes horrores inimagináveis são algo cotidiano para inúmeros homens, mulheres e crianças”, adverte o secretário geral da organização, Salil Shetty. “A tortura é abominável. É bárbara e desumana. Nunca pode ser justificada. É um erro, é contraproducente e envenena o império da lei substituindo-a com o terror. Ninguém está a salvo com um Governo que a utiliza”, acrescenta Sherry na introdução do relatório.
No entanto, embora muitos governos a tenham proibido, continuam praticando ou tolerando sua prática, salientando que “não basta a proibição global”. Por isso, meio século após começar sua luta contra a tortura e 30 anos após conseguir sua proibição, a Anistia lançou uma nova campanha mundial para conseguir que a tortura seja efetivamente erradicada.
O relatório destaca que “em vários países das Américas, o uso da tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos e degradantes é algo rotineiro e é aceito por muitos como uma resposta legítima aos altos níveis de violência criminosa”. No Brasil, 80% dos detentos temem ser torturados e no México, 64%, as cifras mais altas de um inquérito levado a cabo pela Anistia do qual participaram 21.000 pessoas em 21 países de todos os continentes. “Inclusive 32% das pessoas nos Estados Unidos e 21%, no Canadá, temem ser torturados”, destaca a Anistia.
“A tortura está presente em prisões e centros de detenção de toda a América. Em muitos países os detentos recebem surras, eletrochoques e abusos sexuais e lhes é negado o acesso a cuidados médicos”, denuncia o relatório. A tortura utiliza-se para castigar os réus e para obter “confissões” dos suspeitos de serem delinquentes e utiliza-se também contra manifestantes em países como o Brasil, México e Venezuela.
O relatório cita estudos que revelam um incremento do uso da tortura no México desde 2006, destaca a falta de investigações pelos abusos detectados na Colômbia, a tendência do Governo dos Estados Unidos a se desentender sobre os abusos na chamada guerra contra o terrorismo e as centenas de delitos cometidos no passado recente pelos regimes militares em países como Chile, El Salvador e Uruguai e que não chegaram até os tribunais.
Na Europa e na  Ásia central, a tortura continua sendo um problema nos países da antiga União Soviética e destaca que também “se documentaram” casos dentro da União Europeia. O texto destaca, no entanto, os avanços que se viveram na Turquia.
Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/05/12/internacional/1399918141_217201.html

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Sociólogo analisa obra que retrata a culinária paulista do final do século 19


Todo paulista deveria ir, ao menos uma vez na vida, à Pinacoteca do Estado. Indo à Pinacoteca, deveria estacionar diante do quadro de Almeida Júnior, "Cozinha Caipira" (1895).
Diante do quadro, vasculhar os componentes da cozinha e demorar-se na solidão da mulher de cócoras, catando feijão na peneira -iluminada pela luz estreita que atravessa a porta, a mostrar a posição herdada dos índios.
Diante da sua solidão, meditar sobre o verso de João Cabral de Melo Neto: "Catar feijão se limita com escrever".
O quadro de Almeida Júnior expressa uma ideia profunda sobre o caipira: o abandono na pobreza. Tudo é tosco, caindo aos pedaços (como as paredes), sem que qualquer elemento tenha grandeza e dignidade.
O forno romano (que hoje chamamos "forno de pizza"), à esquerda em primeiro plano, tem uma história maravilhosa de Roma a nossos dias, passando pela Catalunha medieval, de onde se difundiu. Mas está lá, desmilinguido, incorporado ao quadro como ruína de antiga civilização.
O banquinho indígena, em primeiro plano, à direita, evoca outra ruína civilizatória, como a perguntar: o que fizemos com os índios?
No segundo plano, à esquerda, um grande pote vazio, ladeando um pilão talhado em tronco de árvore. Ao fundo, o fogão a lenha, sobre o qual se vê no fumeiro uns embutidos e um pedaço de toucinho de porco; à direita do fogão, a porta que tem por sentinela uma galinha e oseu minúsculo pintinho. E, ao fundo, no quintal, um verde milharal.
Editoria de Arte/Folhapress
A POBREZA DO JECA
Milho, galinha, toucinho, feijão catado -coisas que, combinadas com simplicidade, hoje achamos iguarias, mas que expressam justamente a pobreza do Jeca que Monteiro Lobato descreveria algumas décadas depois.
Da representação da pobreza em "Cozinha Caipira" à materialização do requinte de hoje, a culinária parece ser esse terreno onde deslizamos do presente ao passado sem tropeçar no fato de que encarna uma história que preferimos apagada pelo tempo.
Relações sociais dramáticas, de uma civilização de frangalhos, plasmadas hoje como coisas saborosas.
Massacramos os índios e nos vimos como heróis, bandeirantes. Recobrimos tudo com pizza e molho de tomate; além dos sushis e quibes, é claro. São Paulo não tem história digna desse nome porque ela é feia, muito feia.
Sangue e pobreza. Importamos a história culinária dos imigrantes junto aos sabores que competem com a cozinha caipira. Mas Almeida Júnior está na Pinacoteca justamente para nos lembrar dessa outra história. A história de cócoras.
E quando comemos feijão com toucinho ou linguiça, ou quirerinha de milho com frango ou suã de porco, somos um pouco como os índios ianomâmi. Seus mortos, feitos em cinzas e misturados a outras coisas, eles comem em silêncio para que sejam esquecidos e, assim, ultrapassem os umbrais do Paraíso.
Carlos Alberto Dória é sociólogo, autor do livro "A Formação da Culinária Brasileira" (ed. Publifolha) 
Conheça a obra
Onde Pinacoteca
Endereço Praça da Luz, 2, tel. 0/xx/11/3324-1000

Blog do Carlos: http://ebocalivre.blogspot.com.br/


Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/comida/1195842-sociologo-analisa-obra-que-retrata-a-culinaria-paulista-do-final-do-seculo-19.shtml

domingo, 28 de agosto de 2011

O magnifíco Pondé.


Eu adoro o filosofo Luiz Felipe Pondé. Adoro o jeito que ele fala, como escreve, elabora seus raciocínios. É um dos poucos pensadores modernos que aparecem na televisão e vão contra todo modo de vida da sociedade. Acho incrível quando ele fala da hipocrisia que vivemos.  
A algum tempo li uma entrevista dela no site da Abril, onde ele fala da ilusão que as pessoas possuem de sua própria imagem, onde todos se esforçam para serem ou parecerem felizes, quando na verdade todo mundo é infeliz, preconceituoso, invejoso etc.
Entro em verdadeiro êxtase quando ele fala de religião, tempo, espiritualidade... 

Bem, segue um artigo que ele escreveu, que eu achei em um blog muito bacaninha, focado somente no Pondé.



Os sem-Ipad


Você sabia que agora existe em Londres o movimento dos sem-iPad? Coitadinhos deles. Quebram tudo porque a malvada sociedade do consumo os obriga a desejar iPads… No passado todo mundo era “obrigado” a desejar cavalos, tecidos de seda, especiarias, facas, tambores, ouro, mulheres…
Como ficam as pessoas que desejam, não têm, mas nem por isso saqueiam lojas, mas sim trabalham duro? Seriam estes uns idiotas por saberem que nem tudo que queremos podemos ter e que a vida sempre foi dura?
Esta questão é moral. Dizer que não é moral é não saber o que é moral, ou apenas oportunismo… moral. Resistir ao desejo é um problema de caráter. Um dos pecados do pensamento público hoje é não reconhecer o conceito de caráter.
Logo existirão os “sem-Ferrari”, os “sem-Blackberry”, os “sem-Prada” também? Que tal um “bolsa Blackberry”? Devemos criar um imposto para os “sem-Blackberry”?
Na Inglaterra, dizem, existem famílias que nunca trabalharam vivendo graças ao governo há gerações. É, tem gente que ainda não aprendeu que não existe almoço de graça.
Mas esse fenômeno de querer desculpar todo mundo da responsabilidade moral do que faz não é invenção de quem hoje justifica a violência em Londres clamando por justiça social na distribuição de iPads.
É conhecida a passagem na qual o “homem do subsolo” no livro “Memórias do Subsolo”, de Dostoiévski, abre suas confissões dizendo que é um homem amargo. Em seguida, alude à teoria comum de que ele assim o seria por sofrer do fígado. Logo, a culpa por ele ser amargo seria do fígado.
Ele recusa tal desculpa para sua personalidade insuportável e prefere assumir que é mesmo um homem mau. Eis um homem de caráter, coisa rara hoje em dia.
Agora, todo mundo gosta de “algum fígado” (a sociedade de consumo, o patriarcalismo, a Apple) que justifique suas misérias morais.
O profeta russo percebeu que as ciências preparavam uma série de teorias que tirariam a responsabilidade do homem pelos seus atos.
A moda pegou nos jantares inteligentes e hoje temos vários tipos de “teorias do fígado” para justificar nossas misérias morais. Uma delas é a teoria de que somos construídos socialmente.
Dito de outra forma: O “sujeito é um constructo social”. Logo, quebro loja em Londres porque fui “construído” para enlouquecer se não tenho um iPad. Tadinho…
Tem gente por aí que tem verdadeiro orgasmo com essa bobagem.
Não resta dúvida de que há algo verdadeiro na ideia de que somos influenciados pelo meio em que vivemos. Por exemplo, se você nasce numa favela, isso não vai passar “desapercebido” nos seus modos à mesa, no seu comportamento cotidiano e nas suas expectativas e possibilidades na vida.
Mas aí dizer que “o sujeito é um constructo social” é pura picaretagem intelectual. Ninguém consegue ou conseguirá provar isso nunca, mas quem precisa de “provas” quando o que está em jogo são as ciências humanas, que de “ciência” não têm nada.
Esse blábláblá não só exime o sujeito da responsabilidade moral, como abre a porta para todo tipo de “experimento” psicossocial, político ou justificativa moral, que, na realidade, serve pra qualquer um inventar todo tipo de conversa fiada em ciências humanas “práticas”.
Por que tanta gente adora essa teoria? Suponho que, antes de tudo, o alivie de ser você e coloque a “culpa” de você ser você no pai, na mãe, na escola, na vizinha, na sociedade, no consumo, na igreja, no patriarcalismo, no machismo, na cama de casal, no iPad, no diabo a quatro. Menos em você.
Temos aí uma prova de que grande parte das ciências humanas não reconhece o conceito de caráter.
Moral é exatamente você resistir a impulsos que outras pessoas, sem caráter, não resistem. Já leu Aristóteles? Kant?
A “culpa” do que hoje acontece em Londres não é do consumo. Homens sempre quebram coisas de vez em quando e querem coisas sem esforço. As causas podem variar. Hoje em dia, seguramente, uma delas é que muita gente está acostumada a um Estado de bem estar social que os trata como bebês. A preguiça, sim, é um traço universal do ser humano.

Fonte: 

domingo, 5 de junho de 2011

Feios, gordos, dessexualizados e infelizes

“Quem ama o feio, bonito lhe parece”. Sim, mas o difícil é amar o feio.   Arthur Danto tem insistido que a arte não se relaciona mais com o belo. Talvez até ocorra o contrário, há objetos em galerias que visam arrancar todo tipo de expressão dos visitantes, menos a de prazer com belo. Umberto Eco, diferentemente, acredita que há, sim, um belo em nosso tempo, mas que não está mais na arte e sim na mídia, algo voltado para o que ele chama de “consumo”.

Hoje, mais do que em qualquer outra época, o que consideramos belo está profundamente ligado a nós mesmos. Nossa cultura atual é narcísica – certamente! Mas não devemos notar isso para colocar dedos em riste. É bom aqui apenas tomar distância tendo consciência histórica. O narcisismo é apenas o desdobramento do processo, marcadamente moderno, de surgimento do sujeito como peça importante de nossos discursos e de culto do indivíduo como elemento produtor e produto da política – exatamente uma das facetas da boa doutrina liberal. Isto tem empurrado o belo na direção de nós mesmos. É tão verdade isso que quando falamos em belo, para a maioria de nós, não vem à mente algo como uma obra arquitetônica ou uma paisagem, mas a figura do corpo humano. Aliás, nem mesmo o corpo humano representado no mundo das artes plásticas, mas o corpo, em nosso imaginário, como já se apresenta no mundo da mídia. Um mundo que se funde, é claro, com o mundo do consumo estratificado.

Belo somos nós. Nada pode ser propriamente belo, senão nós. Há inúmeras coisas no mundo que podemos dizer que são belas, é claro, mas parece que estamos realmente falando do belo quando estamos nos referindo à figura humana. Demorou mas, enfim, nossos corpos foram para o palco que criamos nos tempos modernos e, uma vez tendo chegado lá, são os donos da cena.  Quando falamos em beleza, hoje, o que é chamado à mente tem a ver com a nossa silhueta humana. Nada há no mundo urbano de mais celebrado como o lugar do belo que os espaços em que há o desfile – em avenidas, nos shoppings, na TV e, agora, na Internet, que nada é senão a fusão disso tudo.
Essa centralidade do belo em nós mesmos deveria ser celebrada. Afinal, que bom que podemos, ao falar de beleza, falar de nós mesmos, não é verdade?  Mas essa humanização do belo e, ao mesmo tempo, a democratização do belo e a socialização das nossas imagens têm seu preço. E esse preço não vem com a facilidade do crediário.

Belo somos nós e na riqueza de nossas divergências é que encontramos a pluralidade do belo. Ao mesmo tempo, junto dessa pluralidade, alguns elementos padronizados saem das catacumbas do inferno, como se viessem de bueiros das grandes avenidas para se incrustar nas vitrines, dar brilho às academias, criar palcos especiais de TV e colocar webcans em rotinas twitteiras. Junto do mundo plural, paradoxalmente  a sombra do partido único levanta sua cabeça: a estética da silhueta malhada ou magra se impõe e espalha o horror à gordura.
De onde veio isso? Não era para esse mundo urbano e plural, que cultiva a profusão de tipos e tribos e que tem a Internet para ajudar nisso, ter varrido de vez qualquer ditadura da padronização? Sim! À primeira vista era isso que esperávamos. Ora, se assim é, de onde surgiu esse culto à beleza do corpo magro ou malhado? Não é essa padronização exatamente o oposto da liberdade com que somos banhados atualmente?

Talvez possamos tentar entender essa padronização vinda do inferno como sendo um aviso de nosso narcisismo contra uma outra padronização – esta sim efetiva. Pois, ao mesmo tempo em que colocamos no altar a magreza e/ou o corpo malhado, o que ocorre mesmo é que temos ficado disformes, gordos, relaxados e profundamente feios. Há muito gente gorda (e por isso feia) andando nas ruas. Então, como que se tivéssemos um sininho de aviso, nosso vocabulário se altera rapidamente e transforma a palavra “gorda” no único palavrão que realmente ofende uma mulher – e agora também um homem – na atualidade. Assim, no frigir dos ovos, antes que uma ditadura do corpo malhado ou magro o que se efetiva é uma reação contra a ditadura já existente, a que fez com que, na prática cotidiana, nos tornássemos essas pessoas que tiram fotos todos dias e, no entanto, são completamente não apresentáveis. Essa ditadura real é a da vida sob condições modernas: trabalho em ambientes fechados, comida de fast food ou em restaurantes do tipo self service piores que o fast food, horas de tensão no trânsito, consumo de alcool em excesso para “relaxar” do dia de trabalho etc.
Vamos ser sinceros. Podemos achar mulheres lindas e atrativas no Orkut. 


Podemos achar garotos belíssimos no Twitter. Mas tudo isso é limitado aos ultra jovens. No geral, o que temos é um festival de horror. E na vida cotidiana, afastados das câmeras semi-privadas de nossos PCs, esse festival de horror torna-se ainda mais macabro. Somos um bando de feios, ou seja, gordos. Formamos a escória do mundo. Então, como não podia deixar de ocorrer, nos transformamos em pessoas descontentes com o que somos corporalmente. Sendo que em nossos tempos nossa identidade é, em alto grau, corporal, somos pessoas pouco felizes . Nada em nós nos agrada. Mesmo quando temos  êxito, parece que não podemos comemorar, e culpamos nossa silhueta. Caso tenhamos algum fracasso, então a própria culpa é do nosso peso, de nossa feiura. Temos agora, no mundo contemporâneo, um palco para cada um de nós. Mas, subir nele, todos os dias, tem sido uma tortura, uma vez que não nos sentimos aptos a nos mostrar ali. Por isso mesmo entramos sem qualquer piedade na primeira academia da esquina e fazemos nossa matrícula. Acreditando que iremos mesmo freqüentar aquilo. E então, ao final do mês, com o claro insucesso da academia sobre nós ou com o êxito falso e perigoso dos anabolizantes, marcamos a data da lipoaspiração. Ora, mas é a que podemos pagar e, assim, vamos para o perigo. E acabamos ficando por ali mesmo, na mesa cirúrgica, mortos. Morremos! Isso antes por sermos feios do que por vaidade excessiva.

Não morremos ou nos ralamos pelo culto a um padrão de beleza. Prejudicamo-nos porque, ao ficarmos completamente fora da possibilidade de subir nos palcos que agora temos em demasia, forjamos um antídoto muito severo contra essas montanhas abomináveis  de banhas em que nos tornamos.  Não conseguimos nos redescrever e, então, nos aceitarmos. Vivemos tensionados, de regime em regime. Da compra de inúmeros produtos de beleza e rejuvenescimento passamos para as cirurgias plásticas e para o implante de silicone em todas as partes do corpo. Queremos de toda maneira esculpir a barriga de tanquinho através de processos de lipoaspiração associados à siliconização.  Poderíamos fazer tudo isso dentro de uma situação mais ou menos normal, harmônica. Mas isso não foi possível. A aceleração da Internet na democratização do palco deu um empurrão em nosso narcisismo, mas, ao mesmo tempo, nosso trabalho e nossa vida massacrante e deserotizada nos força a ficar feios. Queremos resolver isso da noite para o dia. Disso surgem as tensões, o profundo descontentamento pessoal e as frustrações irreversíveis. Aí, em certos casos, não temos medo de dizer “antes desaparecer da face da Terra do que viver sob essa aparência”. É nessa hora que passa um anjo torto e diz amém.

Por: Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

PS: Acredito que cada vez mais a tecnologia favorece este pensamento narcisico, as pessoas tem recursos para se tornarem cada vez mais jovens (ou pensam que estão) e se esquecem de seu papel na sociedade. Observo que todos querem disputar o palco da vida, mas infelizmente (ou felizmente) não há espaço para todos!