quarta-feira, 4 de junho de 2014

The Reverend Peyton's Big Damn Band - "Devils Look Like Angels"

Especialista dá dicas de como preparar um bom café em casa

Já na virada dos séculos 18 e 19 uma questão incomodava o pensador de gastronomia francês Brillat-Savarin: qual seria a melhor maneira de fazer café?
Em seu livro "A Fisiologia do Gosto" (Companhia das Letras), conta que tentou muitas fórmulas até encontrar sua predileta, entre elas preparar o café sem queimá-lo, tomá-lo frio e fazê-lo ferver por trêsquartos de hora.
Karime Xavier/Folhapress
café, um ritual

Muita água rolou desde então. Hoje, existem técnicas precisas para selecionar, moer e torrar grãos. E quem gosta de uma boa xícara tem à disposição não só cafés de qualidade, mas apetrechos de nomes ousados como chemex, clever e hario V60.
São métodos que oferecem possibilidades distintas, como extração mais ou menos rápida e filtros de diferentes materiais e design.
E, diante da oferta, vale retomar a questão de Brillat-Savarin: qual deles é o melhor?
Na verdade, nenhum. Depende de sua preferência por aromas, sabor e corpo.
Essa é a complexidade do café: ele pode mudar com o método, a moagem, a quantidade utilizada. Você precisa conhecer o perfil da bebida de que gosta e testar sua receita, explica Leo Moço, barista campeão brasileiro.
Para ajudar nessa descoberta, o "Comida" ensina a usar seis métodos seguindo dicas de Moço, da barista Carolina Franco, da Lucca Cafés, em Curitiba, e do consultor Ensei Neto. A cafeteira com coador de pano acabou ficando de fora porque o tecido pode acumular resíduos.
De resto, aprecie também dicas essenciais para trazer um bom resultado à (qualquer) xícara. E, se pintar alguma dúvida, dê uma olhada em nosso glossário clicando aqui. Bom cafezinho.
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DICAS PARA FAZER EM CASA
Siga as orientações da barista Carolina Franco de Souza, da Lucca Cafés Especiais, de Curitiba
1 Escolha um grão de boa qualidade, indicado como "café especial" na embalagem. Não confunda com denominações como "gourmet" ou "superior". Na dúvida, prefira marcas com o selo da Associação Brasileira de Cafés Especias (BSCA)
2 Prefira o grão Arábica que, se bem cultivado, tem grandes chances de produzir um bom café
3 Utilize o pó em três semanas no máximo. No período, evite geladeira, umidade, luz e cheiros fortes. O ideal é mantê-lo em seu próprio saquinho, fechado dentro de um recipiente com tampa, no armário
4 Use água filtrada ou mineral para evitar a presença de cloro, que destrói os óleos essenciais do café
5 Ferva a água. Depois disso, desligue o fogo e deixe descansar por um minuto. O processo garante que a temperatura não esteja em 100°C na hora de passar o café, o que extrairia mais sabores amargos
6 Use de 5 a 6 colheres de sopa de café moído para cada litro de água
7 Moa os grãos logo antes do preparo e, assim, preserve os aromas e previna a oxidação, que pode dar gosto rançoso à bebida
8 Evite o filtro de pano. Reutilizável, ele pode manter resíduos de gordura. Além disso, os tamanhos dos buracos, muito diferentes, não oferecem uma extração regular
9 Depois de colocar o filtro, escalde o papel para evitar que o aroma de celulose interfira no gosto. Descarte essa água
10 Coloque um pouco de água para hidratar o café e, só depois, despeje o restante. A pré-infusão elimina as bolhas de ar, aumentando a interação entre o pó e a água no restante do processo
11 Escalde a xícara para conservar o calor da bebida por mais tempo
12 Consuma o café em, no máximo, uma hora para evitar a oxidação. Ainda assim, apenas se a bebida for conservada em garrafa térmica de boa qualidade
13 Tente ingerir a bebida sem açúcar. O café de boa qualidade já tem uma doçura natural.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/comida/2014/06/1464600-especialista-da-dicas-de-como-preparar-um-bom-cafe-em-casa.shtml

terça-feira, 3 de junho de 2014

Clipe Felicidade - Marcelo Jeneci

Precisamos nos drogar para não sucumbir?

São infinitas as formas com que o ser humano conseguiu, através de uma paixão, resistir à dureza, à violência e à monotonia da existência.
Há um aspecto das drogas do qual pouco se fala, porque o ser humano ou se droga de algum modo ou enlouquece. A falácia radica em que hoje chamamos de droga tudo que pode ser uma âncora para poder sobreviver sem perder o gosto pela existência.
Chamamos de droga tudo que nos oferece prazer, do sexo à comida e não só os estupefacientes químicos. Na verdade, mais que de drogas, trata-se de “paixões”, como se apelidavam antes que o comércio milionário e violento das drogas químicas se apropriasse da palavra.
Desde os tempos mais antigos, o ser humano se drogou em busca de uma alteração da consciência que lhe produzisse prazer e alegria e lhe permitisse esquecer as agruras da vida. Fez isso até ritual e religiosamente, usando as plantas e tudo que alterava os sentidos.
Os psicólogos alertam que o ser humano – assim como provavelmente muitos dos animais – enlouqueceria se não tivesse paixão por algo. Podem ser grandes ou pequenas paixões, mas necessitamos de algo que nos excite, ofereça-nos ilusão a cada dia que amanhece e a cada noite em que nos rendemos ao sono.
São infinitas as formas com que o ser humano, através de uma paixão que lhe ofereça algum tipo de satisfação, conseguiu resistir à dureza da existência, a sua monotonia ou a sua violência.
Busca-se essa paixão ou essa droga por todos os meandros de nossa vida. Pode ser o poder como afrodisíaco, o sexo, o amor, a leitura, a arte ou a paixão pela natureza. E até a religião.
Pode ser que haja paixões que consideramos mais nobres que outras, mas no final são todas elas um medicamento mais ou menos ilustre que nos impede de enlouquecer.
Há quem se refugie na fruição das drogas químicas, ou do álcool. Uma grande paixão de amor é também uma grande droga até o ponto em que se diz, sobre as pessoas que a vivem, que parecem enlouquecidas.
Atribui-se uma periculosidade especial às drogas, às quais se diferencia das paixões, porque elas podem levar à morte e alterar nossa capacidade cerebral. Entretanto, igualmente perigosa e letal pode ser uma grande paixão de amor ou sexual.
Quantos se suicidaram no mundo por amor, ao não ser correspondidos ou não conseguir superar essa paixão? Ou mataram arrastados por ela? O jogo e o poder são outras paixões que podem levar ao suicídio. Mas o que produziria mais morte no mundo seria a falta de paixões. Sem elas, o ser humano ou enlouqueceria ou se embruteceria.
Pode ser uma droga também a paixão pelo exercício físico ou até pela religião, qualificada por Marx de “ópio do povo”, mas o certo é que o fato religioso pode chegar a ser uma das drogas mais fortes capazes de alterar as consciências. Basta recordar os grandes místicos, seus êxtases e suas paixões por imitar o Crucificado.
Já houve místicas que passaram até meses sem comer, alimentando-se da Eucaristia, e até sem dormir E os santos com chagas, como Francisco de Assis ou, em nosso tempo, o Padre Pio? Hoje a ciência sabe que essas chagas são produzidas por esses místicos com a força de sua paixão pela identificação com Cristo. Existe maior droga? E os mártires? Alguns médicos agnósticos me confessaram que morrem menos desesperados aqueles que têm nesse momento a âncora de alguma fé religiosa.
O ser humano, apesar de toda sua arrogância externa, nasce frágil e carrega essa fragilidade física e psíquica por toda a vida. Ninguém nasce destinado à felicidade, que é paradoxalmente uma conquista dolorosa. Nenhum bebê nasce rindo, nasce chorando talvez de medo e de estupor.
A vida por si mesma nem sempre basta para uma realização total das ânsias de felicidade e de conquista do Homo sapiens. O homem, para melhor realizar-se e melhor lutar contra suas frustrações, necessitará de alguma paixão se não quiser sucumbir ou render-se à mediocridade.
Poucas drogas são mais fortes na vida, por exemplo, que uma amizade verdadeira, sincera, forte, inquebrável. É o melhor antídoto contra a solidão.
Existem as drogas consideradas positivas e as negativas, como existem os verdadeiros e falsos amores. Entre as negativas, poucas são tão fortes e tão letais, em nossa existência, como a solidão forçada, a falta de amor ou o abandono dos que amávamos.
Até no ser humano que se sente realizado segue viva em seu interior, como uma ameaça latente, essa fragilidade com que todos nascemos.
Entre os satisfeitos ou falsamente satisfeitos com sua fatia de poder e autossatisfação, pulsa, filho dessa fragilidade congênita, o medo de perder seu paraíso
Sem algo que o sacuda da rotina e da mediocridade, o ser humano, do mais culto ao mais analfabeto, cairia na infelicidade. Às vezes, entretanto, uma pequena paixão ou alegria, como o perfume do café ao despertar; o sorriso de um filho ou um neto, a ajuda generosa e desprendida a alguém que chega até você em busca de ajuda e de consolo, pode constituir a melhor e mais poderosa droga para poder continuar apreciando a vida.
Podemos até alterar nossa consciência, por exemplo, com a fruição de uma música, com a contemplação de uma pintura que nos empolga e até com o esplendor de um arco-íris, como o que esta manhã, depois de uma chuva outonal, surgiu como um deus, sobre o Atlântico que tenho diante de meus olhos ao escrever.
Pode alguém drogar-se com a beleza ou com uma leitura o apaixone? A melhor droga seria na verdade a vida em si, mas às vezes, para tantos, é tão cruel, que precisam temperá-la e adoçá-la com alguma paixão. Quando até isso falta, a noite se torna duplamente escura.
Por que estão aumentando no mundo a depressão e o estresse?
Possivelmente por falta dessas pequenas ou grande paixões que são o melhor remédio para desfrutar a vida e fugir de sua crueldade e frustração.
Sem alguma paixão que nos sacuda de dentro, até um amanhecer acabará ferindo nossos olhos acostumados à escuridão das noites vazias e até o silêncio nos fará um ruído insuportável.
Embalados, em vez disso, por alguma paixão, tudo recupera o frescor e a beleza do primeiro dia da criação.

*Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/06/01/opinion/1401657357_559577.html