domingo, 16 de novembro de 2008

A Construção do Estado Ateísta


“Era uma vez um casal de ateus que tinha uma filha de seis anos. Um dia, durante uma briga,
o marido matou a mulher e depois se matou com um tiro na cabeça, tudo na frente da criança...”

Não importa como continua a história. Nós, ateus, conhecemos a sua moral. Fomos criados sob esses preconceitos. A maior parte de nós não nasceu ateísta nem teve pais ateus, ao contrário da infeliz historinha acima. Nascemos na maior nação cristã do mundo, somos batizados e sabemos o pai-nosso (com minúscula mesmo) de cor.

A moral cristã é impiedosa com os ateus. Nossa imagem não goza de status social e, invariavelmente, somos considerados estranhos e pecaminosos. É a nossa herança. Revoltadas, legiões de ateus se formam para proclamar sua aversão aos preceitos cristãos e da Igreja. O que é isso? Guerra?

A crença no além está enraizada na sociedade. Não podemos odiar aqueles que crêem. Estaremos odiando nossos pais e irmãos. “Mas como vamos combater esse preconceito com a nossa filosofia?” perguntarão alguns. Não vamos. Em vez disso, vamos encarar o problema de frente e mostrar a eles que nossa filosofia é, antes de tudo, baseada na humildade.

É difícil ser ateu. Encaramos a morte com olhos aterrorizados. A despeito de todos saberem que ela é inevitável, nós a encaramos como o fim de tudo. Não esperamos nada do além-túmulo. Não estamos indo ao encontro a deus ou a eternidade. Quando nos apaixonamos, não esperamos viver no paraíso ao lado de nossas esposas ou maridos. Tornar-se-á célebre a frase de Ann Druyan, viúva de Carl Sagan, um dos ateus mais respeitáveis dessa geração, ao falar da despedida do marido, no leito de morte: “Nenhum apelo a Deus, nenhuma esperança sobre uma vida pós-morte, nenhuma pretensão que ele e eu, que fomos inseparáveis por vinte anos, não estávamos dizendo adeus para sempre.” São palavras terríveis, mas sabemos que são verdade. Sabemos. A consciência ateísta, quando surge, nos eleva a uma percepção única. Passamos a enxergar a vida como a areia da ampulheta, que escorre inexoravelmente pela fenda. Não importa o quão correta tenha sido sua vida, no fim, a morte reina absoluta.

“Pessimista!”, gritam alguns frente a estas verdades. Já estamos acostumados. Somos ateus, percebemos nossa limitação. Somos feitos de carne e osso. Dúvidas quanto a isso? Cientistas já decifraram o código genético, não temos mais segredos. Até agora, nem sinal de um espírito. Estamos vazios.

Ora, retire do cristão a promessa da vida eterna. De que adiantaria, então, seguir os passos do Senhor? A religião está impregnada da relação oferta-procura: “Eu sou bonzinho, o Senhor me dá a vida eterna. Sou humilde, por isso viverei para sempre”. Se a promessa da vida eterna fosse arrancada do Homem, este se revoltaria contra deus. Viveríamos num universo burlesco e trágico, onde os crentes tornar-se-iam os ateus da historinha acima. Ainda assim, é difícil afirmar que a crença em Deus está associada à ignorância. Conheço pessoas bastante inteligentes de todas as religiões. A questão é mais profunda do que isso. Está ligada ao resto de instinto de sobrevivência que temos.

Nossos ancestrais hominídeos eram caçados por animais maiores. Quase sempre, a morte era sangrenta e violenta. Desenvolvemos um medo natural por ela. Tínhamos medo de muitas coisas. Tínhamos medo da escuridão quando o Sol morria no horizonte ou quando as montanhas rugiam, soltando fumaça. Divinizamos aqueles fenômenos, não podíamos explicá-los, pois éramos pouco mais que macacos enormes e desengonçados, aprendendo a explorar suas potencialidades. Chorávamos quando tínhamos que abandonar um membro doente na migração do inverno ou quando nossos velhos eram expulsos da aldeia por não servirem mais ao trabalho. Não havia enterros e, talvez, nem piedade.

Estabelecemos morada para os deuses no alto das montanhas e no fundo do mar. Quando subimos ao cume das montanhas e cruzamos o oceano em toscos barcos de junco, empurramos os deuses para outras esferas. Nossos aviões nunca atropelaram um anjo, nunca encontramos um par de chifres enterrados no quintal de casa. Arrebatados para o “céu” ou o inferno, os deuses nunca mais foram acessíveis. Hoje, são vistos apenas em igrejas, por um número seletíssimo de escolhidos que têm a sorte de ver, mas nunca a chance de registrar.

Com o surgimento da tecnologia, tornaram-se fontes de luz ou sombras, receberam explicações espirituais complicadas e teorias esotéricas profundas e claras como um bueiro. Não precisamos disso. A humanidade tem criado seus pesadelos, mas também tem realizado sonhos sociais, materiais, divinos. Cientistas, no século XX, fizeram mais pela Humanidade (esta sim, com maiúscula) que deus fez em toda sua história. Empurramos a presença de deus cada vez mais para o fundo do poço. Não rezamos mais para curar as doenças. O papel de deus diminui a olhos vistos. Aprendemos a creditar nossos problemas à nossa incompetência ou ignorância, já não existem demônios a assombrar nossos feitos.

Essa é a verdadeira essência da humildade. Sabermos nosso papel na história do desenvolvimento humano, a consciência do fim cada vez mais próximo. A semelhança entre o Homem e o peixinho que ele cria no aquário é de 98% em ordem genética. Não há divindade no nosso nascimento, não há milagres no cotidiano.

A revelação da humildade chega ao ateu quando este encara, pela primeira vez, a inigualável sensação de livrar-se da culpa da religião, do pecado natural. Não precisamos de religião para aprender a humildade. Quando encaramos nossas limitações, ela surge naturalmente. Ficamos assombrados pela nossa ignorância e pela impotência frente a todo conhecimento. Aprendemos que até o matuto tem a nos ensinar.

Talvez a religião ainda seja um mal necessário. Quando deixarmos de ser julgados pelos crentes, talvez possamos expor nossas idéias com clareza. Neste dia, a humildade poderá florescer entre os homens, fundamentada em princípios humanos, e não em fantasias envolvendo deuses e demônios. Será um tempo, então, onde todos poderão considerar-se irmãos, pois ninguém esperará mais da vida do que seu semelhante.

DOGVILLE

Não é só Nicole Kidman que comeu o pão que o diabo (ou melhor, Lars Von Trier) amassou. Os espectadores também. Contudo, mesmo com todas as maldades ressentidas pelos habitantes daquela rua, ficamos com gostinho de quero mais depois de três horas de filme. O dinamarquês Von Trier optou ousar estilisticamente. O cenário foi reduzido a um enorme galpão, com o mínimo possível de objetos de cena possíveis. Mais Bretch que isso é impossível! Melhor para nós que podemos imaginar o que quisermos... Há algo de podre no reino da Dinamarca? Ou será que algo fede nos Estados Unidos? Melhor cena: a personagem de Kidman andando pelo vilarejo com um sino amarrado no pescoço

Fica o trailer para aguçar a vontade de desvendar a estória...


SER E TER (Être et Avoir, de Nicholas Philibert, FRA, 2002)

Na escola da delicadeza





Ser e Ter é um documentário distante dos tradicionais. Não recorre ao esquema registro do real / entrevista / imagem de arquivo. O longa-metragem do cineasta francês Nicholas Philibert está bem próximo ao chamado ''cinema-verdade'', com a diferença de permitir algumas experimentações estéticas. Para registrar o relacionamento entre um professor e seus alunos em uma pequena escola na região rural da França, Philibert foge do lugar-comum e ousa estender o tempo com planos que focalizam objetos escolares, o balançar das folhas das árvores e o tanger do gado nas pradarias. Ser e Ter diz nas entrelinhas que nada melhor que o tempo para fortificar laços afetivos entre as pessoas, principalmente entre o aluno e o professor. Logo no início, duas tartaguras - símbolos da temporalidade - indicam a atmosfera que o filme seguirá.

Na pequena cidade de Auvergne, o professor George Lopez, 55, segue um método de ensino antigo e considerado em desuso: ele acompanha 13 crianças, do pré-escolar até o ensino fundamental. Em uma única sala, ele dá conta dos seus alunos com idades entre 3 e 11 anos. Lopez separa as lições conforme a faixa etária, dividindo a turma em três grupos. O professor acompanha individualmente cada aluno, seja em matérias de francês, matemática ou pintura. Munido de 35 anos de profissão, Lopez mantém uma desenvoltura natural diante da câmera e, mais ainda, no trato com as crianças, entre o rigor e a delicadeza de sua fala. Não levanta o tom de voz, mas fala diretamente, sem subterfúgios. Pela postura sincera, conquista o respeito e a confiança dos alunos.

Com uma índole dessa, fica até difícil imaginar que George Lopez acabou processando os produtores de Ser e Ter. Diante do sucesso de público e crítica inesperado do filme, o professor cobrou um cachê de 250 mil euros reivindicando co-autoria por, em seu entender, ser tema principal e ator do documentário. É óbvio que Lopez perdeu na Justiça. Se ganhasse, qualquer personagem de documentário teria garantido uma parcela dos lucros de bilheteria. Além disso, os verdadeiros protagonistas de Ser e Ter são as crianças. A câmera fixa boa parte do tempo nos rostinhos alegres ou decepcionados dos alunos.

O brilho do documentário está nas expressões das crianças, filmadas com intimismo e autenticidade perante suas inquietações. O pequeno notável Jojo, de 4 anos, encanta pela inocência e curiosidade. Distraído com os deveres de classe, o garotinho desobedece algumas regras impostas por Lopez e ainda participa de uma cena cativante com Marie, quando ambos tentam tirar fotocópias e acabam quebrando a máquina da escola. São momentos únicos, que retratam a infância no presente, sem fazer apologias à escola como futuro promissor. Pouco importa saber que modelo pedagógico está por trás do ensino do professor, mas sim evidenciar que tipo de relações humanas são construídas dentro da instituição.
Mesmo com a interferência inevitável da câmera, o documentário lampeja instantes reais. Não se trata de expor um ''filme-tese'' sobre a educação. O documentário nem procura ser tão pretensioso assim. Ser e Ter compila fragmentos poéticos do relacionamento entre o adulto e a criança. O cineasta Nicholas Philibert prefere ser menos hermético e mais sensível ao simples. Ele força o espectador a observar os pequenos detalhes que fazem a diferença.

domingo, 9 de novembro de 2008

Montaigne



Todo espírito preocupado com o futuro é infeliz. O mais corriqueiro dos erros humanos é o futuro. Ele falseia a nossa imaginação, ainda que ignoremos totalmente onde nos leva.

Quando pensamos no futuro, nunca estamos em nós. Estamos sempre além. O medo, o desejo, a esperança jogam-nos sempre para o futuro, sonegando-nos o sentimento e o exame do que é, para distrair-nos com o que será, embora o tempo passe e já não sejamos mais.

O anjo torto...

"No nosso tempo, todos os que defendem os povos oprimidos, os movimentos de libertação, as populações esfomeadas do Terceiro Mundo são a esquerda. Aqueles que, falando do alto de seu interesse, dizem que não vêem por que distribuir um dinheiro que suaram para ganhar são e serão a direita. Quem acredita que as desigualdades são um fatalismo, que é preciso aceitá-las, desde que o mundo é mundo sempre foi assim, não há nada a fazer - sempre esteve e estará à diretita. Assim como a esquerda nunca deixará de ser identificada nos que dizem que os homens são iguais, que é preciso levantar os que estão no chão, lá embaixo."

Norberto Bobbio.